Esboço de uma Crítica ao Tradicionalismo a Partir da Perspectiva Budista

Esboço de uma Crítica ao Tradicionalismo a Partir da Perspectiva Budista

“Como este conservadorismo não possui efetividade alguma em termos da política real ou ele se resigna a uma posição de impotência ou acaba resvalando para posições fascistas muito bem conhecidas na história do século XX. Neste sentido, a tradição budista apresenta uma perspectiva ética e política bem mais promissora e bem mais aberta às possibilidades futuras e ao diálogo com as dimensões críticas da modernidade.”

O objetivo da presente interlocução é apresentar um esboço de uma crítica ao Tradicionalismo a partir da perspectiva de uma buddhologia crítica. Neste sentido, torna-se importante elucidar em primeiro lugar os pressupostos desta crítica. Acredito que sejam três os pressupostos mais importantes no primeiro esboço desta crítica. A saber:

O primeiro deles implica na necessidade de distinguir claramente duas tarefas centrais. Ou seja, distinguir a tarefa de uma crítica intelectual rigorosa aos pressupostos do Tradicionalismo das diversas maneiras com que ele tem sido instrumentalizado pelos demagogos políticos da atual extrema-direita. Acredito que será só a partir de uma elucidação crítica dos pressupostos do Tradicionalismo que se tornará possível pensar o sentido de sua instrumentalização ideológica em tempos recentes.

O segundo implica em uma breve elucidação do que seja uma buddhologia critica. Esta perspectiva de pensamento tem sua origem no “Budismo crítico” desenvolvido na Universidade de Komazawa, Tóquio, Japão a partir da primeira metade da década de 80 do século XX, mas se constitui no presente como uma perspectiva intelectual independente. No caso da presente interlocução sua perspectiva central consiste em uma análise das asserções de verdade lógicas e éticas no contexto de uma abordagem crítica na filosofia da religião.

Por fim, o termo tradicionalismo aqui empregado significa a corrente de filosofia esotérica desenvolvida por Rene Guénon (1886-1951) e por seus principais seguidores. Embora esta corrente de pensamento apresente uma diversidade de temáticas, os tópicos abordados na presente interlocução serão a ‘teoria da unidade transcendente das tradições” e sua crítica à modernidade.

Elucidados os pressupostos acima, vamos adentrar então na crítica à “teoria da unidade transcendente das tradições” conforme delineada pela escola Tradicionalista. O pressuposto central desta teoria é a existência de uma “tradição primordial” de caráter transcendente e transhistórico e de uma multiplicidade de tradições concretas que seriam sua expressão em contextos culturais específicos. No entanto, caso esta teoria seja pensada a partir de uma perspectiva budista, inexiste na tradição budista uma “tradição primordial” comum a toda a humanidade. Esta “tradição primordial” pressupõe necessariamente conceitos metafísicos como o ãtman e seus diversos equivalentes que entram em uma contradição lógica mutuamente exclusiva com o anatman (negação do ãtman) e com a “originação dependente” que se constituem como as asserções lógicas de verdade na tradição budista. Existe certamente a possibilidade de um diálogo entre o Budismo e as outras tradições de espiritualidade, mas este diálogo pressupõe o reconhecimento de uma multiplicidade de tradições que não possuem uma origem comum e um debate crítico entre um conjunto de asserções lógicas conflitantes conforme presentes nestas tradições. Pretendo desenvolver uma crítica detalhada da “teoria da unidade transcendente das tradições” a partir destes pressupostos em uma outra ocasião, mas acredito firmemente que esta teoria se constitui como uma falácia sem consistência alguma a ser superada criticamente no contexto dos debates na filosofia da religião.

No que diz respeito à critica da modernidade no Tradicionalismo, e, em particular, na obra de Guenon, é possível reconhecer que ela aponta de forma contundente para muitas das contradições da modernidade. Certamente uma boa parte desta crítica possui aspectos em comum com as críticas românticas e simbolistas da modernidade, mas este não é o ponto principal a ser aqui debatido. A meu ver a questão central aqui é que a modernidade instaurou uma ruptura histórica de caráter irreversível que não pode em momento algum ser superada através de um retorno ao passado. As contradições da modernidade só podem ser superadas através de um percurso que as atravesse e ultrapasse sem que se pressuponha em momento algum um puro e simples retorno ao passado, mas parece-me precisamente que a postura de Guenon só consegue pensar esta superação através do retorno a modelos hierárquicos de sociedades do passado como o sistema de castas indiano e a Idade Média ocidental. Parece-me que é precisamente esta impossibilidade que torna o Tradicionalismo em sentido estrito uma opção política e ideológica completamente impotente e irrealizável. Como este conservadorismo não possui efetividade alguma em termos da política real ou ele se resigna a uma posição de impotência ou acaba resvalando para posições fascistas muito bem conhecidas na história do século XX. Neste sentido, a tradição budista apresenta uma perspectiva ética e política bem mais promissora e bem mais aberta às possibilidades futuras e ao diálogo com as dimensões críticas da modernidade. A ética social budista implica em uma teoria do “contrato social” que situa a justiça econômica como a razão de ser do estado e supera a ideologia do sistema de castas indiano em meio à Sangha ordenada. Assim sendo, a ética social budista possui um elemento crítico capaz de construir uma alternativa futura de sociedade através do diálogo com a modernidade, se constituindo assim em uma perspectiva incompatível com o conservadorismo tradicionalista. Acredito que este diálogo poderá abrir caminho para uma superação crítica das contradições intrínsecas á modernidade, sem cair nos dois extremos do tradicionalismo e do pós-modernismo.

À guisa de conclusão gostaria de dizer que teria sido bem melhor para Guénon e seus seguidores que ele tivesse mantido até o fim sua crítica ao Budismo como um pensamento antitradicional e se ele não tivesse dado ouvidos às fúteis tentativas de A. K. Coomaraswamy e de Marco Pallis de conciliar o Budismo com esta perspectiva. No entanto, seja lá como for, acredito que a única relação que o Budismo pode manter com o Tradicionalismo consiste em uma crítica radical às suas falácias indefensáveis.

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Joaquim Monteiro

Professor do dharma do Jodo Shinshu Honpa Honganji. Doutor em Budismo Chinês pela Universidade de Komazawa, Tóquio, Japão. Graduado em psicologia pela Universidade Santa Úrsula/RJ Desenvolve, no momento, reflexões críticas a respeito da relação entre Budismo e Sociedade.

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