Teosofia e Romantismo Revolucionário em William Blake

Teosofia e Romantismo Revolucionário em William Blake

“Talvez ninguém expresse melhor esta relação entre esoterismo teosófico e romantismo do que o poeta, visionário e pintor inglês William Blake (1757-1827), ao mesmo tempo um cristão heterodoxo e um romântico revolucionário.”

A influência da teosofia cristã foi imensa fora da Alemanha, em países como Inglaterra, França, Itália, Rússia, entre outros. Especialmente no movimento filosófico, literário e científico conhecido como Romantismo, o qual pode ser situado a partir do final do século XVIII.

O interesse romântico pelo esotérico, pelo oculto, tinha relação com o desejo de “reencantar o mundo” dessacralizado tanto pelo Iluminismo do século XVIII quanto pelo triunfo da ciência e do tecnicismo modernos, vinculados umbilicalmente ao processo de consolidação do capitalismo e do espírito “filisteu” de quantificação e monetarização de todos os aspectos da vida humana (LÖWY; SAYRE, 2015). Além disso, este interesse tem relação com o fato do esoterismo representar tanto uma possibilidade de ressacralizar a natureza como, ademais, reencontrar uma Tradição que, em última análise, aponta para o absoluto, para o infinito, para as origens. Como disse Jospeh de Maistre, tradicionalista e romântico francês, “A verdadeira religião. . . nasceu no dia em que os dias nasceram…  As vagas concepções [dos antigos] não eram mais do que os restos mais ou menos débeis da tradição primitiva”(apud SEDGWICK, 2004: 51).

Nesse sentido, a teosofia cristã alimentou de forma intensa os sonhos e devaneios românticos e, entre os teósofos que os românticos mais leram, destaca-se o místico e visionário Jacob Boehme, cuja ponte com o romantismo alemão é feita, sobretudo, através de Schelling, von Baader e Novalis, sem falar de Hegel,  na verdade um crítico do movimento romântico (MAGEE, 2014).

E também deve ser citado o filósofo e erudito sueco Emanuel Swedenborg, influência sobre românticos como Novalis, Nerval, E. A. Poe e mesmo sobre um não-romântico como Balzac. Swedenborg, um místico visionário e um homem de formação filosófico-cientifica do século XVIII, combatido por Kant em nome do racionalismo, é a base para a doutrina da correspondência do livro sagrado, a Bíblia, com o livro da natureza, e de ambos com o mundo espiritual. É a inspiração para poemas como “As correspondências” de Baudelaire e também para uma hermenêutica espiritual da palavra bíblica.

Entretanto, talvez ninguém expresse melhor esta relação entre esoterismo teosófico e romantismo do que o poeta, visionário e pintor inglês William Blake (1757-1827), ao mesmo tempo um cristão heterodoxo e um romântico revolucionário.

Blake conheceu os textos de Swedenborg (e Boehme), o qual, contudo, critica e satiriza frequentemente, apropriando-se da ideia swedenborgiana da iminência de uma Nova Jerusalém como uma Nova Era espiritual.

Em Blake fulguram elementos de um certo paganismo de fundo celta, ao lado do cristianismo. Ele odiava igrejas e religiões institucionais, nas quais não via mais do que alienação e corrupção. Em particular no caso da Igreja católica. Contra a tradição eclesiástica, Blake apontou n’ “O Casamento do Céu e do Inferno”, título parodiado de Swedenborg, que os deuses dos poetas antigos estavam presentes em toda a natureza, mas depois o clero surgiu como uma forma de escravizar e ludibriar o vulgo, abstraindo as deidades mentais de seus objetos, e, assim, os homens esqueceram-se de que todos os deuses moram em suas almas, não precisando de delegados entre eles e o Divino (BLAKE, 2007).

Blake também lastima a condenação feita pelos cristãos tradicionais a respeito do corpo, do sexo e do desejo, e toma essa atitude como expressão de uma moralidade repressiva ou negativa; isso transparece, por exemplo, no poema “O Jardim do Amor”, em “Canções da Experiência”, na figura de padres a lançarem uma sombra sobre o paraíso dos prazeres eróticos (BLAKE, 2011).

Em sua obra, Blake faz uma leitura própria e originalíssima do cristianismo, ao inventar um mundo mítico ao mesmo tempo estranho e fascinante. Segundo Paulo Vizioli, ele progressivamente vai mudando o signo de Jesus como Carneiro, ou seja, a criança inocente, para o Tigre, o adulto capaz de suportar o sofrimento, não representando a submissão infantil mais, e sim a maturidade e a liberdade; isso ocorre na passagem de “Canções da Inocência” (1789) para “Canções da Experiência” (1794), a partir da necessidade de conciliar Cristo com a Revolução Francesa (BLAKE, 1993: 13-20)                                    .Ora, Jesus ou o Filho é na visão teosófica de Blake o “paradigma” da liberdade e da imaginação, contraposto ao Pai, emblema da autoridade e da razão.

Há quem veja no cristianismo peculiar de Blake traços de retomada da tradição esotérica ocidental, em especial daquela relacionada ao gnosticismo, conjunto de correntes heterodoxas e em geral cristãs, dos séculos II-V DC, rejeitadas pela Igreja de Roma a partir de Irineu de Lyon. Blake inclusive chegou a conhecer, segundo Tobias Churton, alguns materiais sobre o gnosticismo (CHURTON, 2015: 152-153). Contudo, a nosso ver, a ideia de um Blake “gnóstico” é bastante problemática. Apesar da sua heterodoxia explícita, o pensamento de Blake é completamente estranho ao dualismo de tipo gnóstico: ele não pretende um exílio do mundo, nem do corpo, mas uma integração entre o material e o espiritual.

Antes de Nietzsche, Blake rejeitou o dualismo típico não só do cristianismo (seja o ortodoxo, seja o gnóstico), mas da tradição metafísico-espiritual ocidental como um todo, buscando uma visão-de-mundo mais integral e dialética. Ele não reconhece, assim, as dualidades alma-corpo, Céu-Inferno, Deus-Demônio, Bem-Mal, Razão-Desejo, tal como diz no “Casamento do Céu e do Inferno”:

O Homem não tem um corpo distinto da Alma, pois aquilo que denominamos corpo não passa de parte da Alma discernida pelos cinco sentidos, seus principais umbrais nestes tempos. A Energia é a única força vital e emana do Corpo. A Razão é a fronteira ou o perímetro circunfeérico da Energia. A Energia é Eterna Delícia.

Não obstante Blake e o gnosticismo antigo partilharem de uma aversão a qualquer formalismo moral, e apesar de ambos defenderem uma certa dualidade teológica, isto é, uma tensão entre dois aspectos distintos do Divino (nos gnósticos, o Pai inefável e Jeová ou o Demiurgo maligno, e em Blake, o Pai e o Filho), é um erro crasso identificá-los de forma completa, sem notar as diferenças existentes (a respeito, cf. WILLER, 2010).

E no aspecto político? Assim como Blake era radical em matéria de religião, politicamente não poderia ser diferente: é um romântico revolucionário, e se entusiasma, inicialmente, com a Independência dos EUA e a Revolução Francesa, eventos em que enxerga a manifestação de Orc (imagem), o espírito da revolta e da liberdade, contraposto a Urizen, emblema da razão e da tradição. Chegou até mesmo a usar o barrete vermelho, símbolo do jacobinismo, por um tempo. Contudo, acabará desiludido com a política, e encaminhará sua revolta para uma dimensão mais existencial e estética, algo não muito diferente de outros românticos da época.

O romantismo blakeano transparece, ainda, em sua visão de modernidade. Ele foi contemporâneo da industrialização da Inglaterra e das transformações urbanas e sociais provocadas por ela, e tem uma consciência aguda dos aspectos perturbadores e excludentes desse processo. Neste poema, por exemplo, aparece uma crítica social, pois naquela época, crianças pobres exerciam a função de limpar chaminés das fábricas, e dessa forma corriam riscos de saúde e até de vida, sem que, contudo, houvesse uma preocupação com sua segurança e bem-estar:

Uma coisa negra sobre a neve clara

Grita: “Limpa-dor!”, com acentos de dor!

“Onde estão teus pais?”, alguém lhe perguntara.

Foram para a Igreja cantar seu louvor.

“Porque eu era alegre, porque eu era forte

E sorria sobre neves de alva cor,

Me vestiram estes vestidos de morte,

Me ensinaram cantos e notas de dor.

“E porque me alegro, porque danço e canto,

Supõem que disso não me vem injúria.

Vão louvar a Deus, mais ao Vigário, e ao Rei,

Que fazem um céu com a nossa penúria.”

(O limpador de chaminés, In: Canções da Inocência e da Experiência, 2011, tradução: Renato Sutanna, p. 35)

Bibliografia

BLAKE, William. Poesia e Prosa Selecionados. São Paulo: Nova Alexandria, 1993.

______________. O casamento do céu e do inferno & outros escritos. Porto Alegre: 2007.

______________. Canções da inocência e da experiência, 2011. Disponível In: http://arquivors.com/wblake1.pdf

CHURTON, Tobias. Jerusalém: a verdadeira vida de William Blake. São Paulo: Madras, 2015.

FAIVRE, Antoine. Christian Theosophy, In: “Dictionary of Gnosis & Western Esotericism”, Wouter J. Hanegraaff, Antoine Faivre, Jean-Pierre Brach et alli (org.). Leiden/Boston: Brill, 2006, pp. 258-267.

LÖWY, Michael, SAYRE, Robert. Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade. São Paulo: Boitempo, 2015.

MAGEE, Glenn A. Hegel e a tradição hermética, prefácio, 2014. Disponível In: https://www.academia.edu/8928947/HEGEL_E_A_TRADI%C3%87%C3%83O_HERM%C3%89TICA

SEDGWICK, Mark. Against the modern world: traditionalism and the secret intellectual history of the twentieth century. New York: Oxford University Press, 2004.

WILLER, Claudio. Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia moderna. São Paulo:  Civilização Brasileira, 2010.

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Daniel Plácido

Professor de filosofia. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP; Especialista em História pela PUC; Cursa mestrado em Filosofia pela UFU.

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