A Insolvência do Sujeito na Indústria Virtual

A Insolvência do Sujeito na Indústria Virtual

“Os grandes caminhos narrativos de redenção social foram desmanchados, como nuvens que se dissipam por meio dos dados globais, que nossos dedos e nossos olhos, atentos, de forma mágica, conduzem.”

O sujeito moderno, portador da sociabilidade da mercadoria, está prestes a morrer, diria, em medida mais humilde, está em processo de insolvência e se dissolvendo a olhos vistos. Resta-lhe a suprema subjetividade consagrada no interior do mundo virtual. Desde o início histórico do modo de produção do Capital, os trabalhadores, completamente despojados do poder de domínio sobre os meios de trabalho e, mais radicalmente, despojados das condições objetivas de subsistência, restou-lhes a própria subjetividade como defesa à exploração e à fragmentação, colocando-se como protagonista na interpretação dos metabolismos socioeconômicos e das aventuras da sociedade produtora de mercadorias.

Os grandes caminhos narrativos de redenção social foram desmanchados, como nuvens que se dissipam por meio dos dados globais, que nossos dedos e nossos olhos, atentos, de forma mágica, conduzem. Como bem Marx e Engels apontaram, “tudo que é sólido se dissolve no ar”[i], coube à pós-modernidade dissolver os grandes referenciais históricos que balizavam a ordem social – religiões, ciência, o próprio marxismo etc. Tudo se dissolve, entre as bilhões de páginas virtuais, das telas dos celulares, por entre as nuvens que se desmancham como a memória de um molusco.

Hoje, 59,9% da população mundial utilizam a Internet, o que corresponde a 4,66 bilhões de usuários, adaptados a todos os ambientes eletrônicos e tecnológicos, por todos os continentes. 4,2 bilhões de seres humanos utilizam diariamente as redes sociais. O Brasil figura entre os países cujos usuários mais utilizam os meios de comunicação eletrônicos, na forma de computadores, celulares, tablets e TV inteligentes. Em tempo médio diário nas redes sociais, os brasileiros ocupam o terceiro lugar com 3 horas e 42 minutos, atrás apenas das Filipinas, com 4 horas e 15 minutos e da Colômbia, em segundo lugar, com 3 horas e 45 minutos[ii].

Os brasileiros dispendem 10 horas e 8 minutos, ocupando o segundo lugar, em tempo médio de acesso à Internet em geral. Fica atrás apenas da Colômbia, com 10 horas e 56 minutos. Em tempo médio diário dispendido com celulares, o Brasil tem a média diária de 5 horas e 17 minutos e ocupa o segundo lugar no mundo. O primeiro é as Filipinas, com 5 horas e 55 minutos[iii].

O tempo médio dispendido apenas por computadores que acessam a Internet, o Brasil figura em quarto lugar, com 5 horas e 51 minutos. O primeiro país é a África do Sul, com 5 horas e 12; Colômbia, com 5 horas e 5 minutos e Filipinas, com 5 horas e 2 minutos[iv].

66% dos usuários no Brasil, encomendam alimentos e comidas, que ocupa o segundo lugar no cômputo mundial. À sua frente, no contexto mundial, apenas da Indonésia, com 74,4% dos usuários. Usuários da Internet com idade entre 16 e 64 anos que afirmam pesquisar produtos on-line antes de fazer uma compra, no Brasil, são de 75,7%; enquanto nas Filipinas, foram 74,1%[v].

Os usuários da Internet com idades entre os 16 e os 64 anos, que utilizaram um serviço de marcação de chamadas ou táxi online no último mês (Uber), no Brasil, representaram 54,1%, em segundo lugar no mundo. A Indonésia figurou em primeiro lugar, como 65,3%[vi].

Chama a atenção o número total de usuários, em âmbito mundial, das mídias sociais. O Facebook contabilizou em março de 2020, 2,74 bilhões de pessoas; o YouTube 2,291 bilhões; WhatsApp com 2 bilhões de pessoas; o Messenger do próprio Facebook, com 1,3 bilhão de usuários; Instagram teve 1,22 bilhões; enquanto o Telegram, 500 milhões e o Twitter, 353 milhões de pessoas[vii].

O total de usuários únicos de telefones móveis, até março de 2021, somou nada menos que 5,22 bilhões de pessoas, espalhadas pelos quatro cantos. Por fim, os sítios e aplicativos mais visitados foram o Google, com 66,52 bilhões de visitas; YouTube, com 20,42 bilhões; Facebook, com 15,52 bilhões; Wikipedia, com 12,96 bilhões; Amazon, 4,34 bilhões. Ainda encontramos o Instagram com 3,76 bilhões; o Tweeter, como 3,24 bilhões de visitas e, por fim, WhatsApp, como 1,34 bilhão[viii].

O mundo virtual não é mais aquela realidade paralela, que apontava apenas para uma possibilidade remota, como um lugar idílico, onde as pessoas poderiam exercitar suas pequenas fantasias narcísicas. A Internet assumiu as relações concretas em todas as suas instâncias e esferas – instituições, estados, produção, circulação, força de trabalho, ciência, administração, educação etc. os computadores assumiram a condução real da subjetividade portadora da mercadoria. Música, cinema, notícias, religião, formação de toda espécie, entretenimento, política, economia, produção material e imaterial de mercadorias. Os cliques que damos em nossos equipamentos são medidos em dólares. Programas sexuais, venda de armas, venda da fé, a culinária, o sexo, Yoga, meditação, orações, cultos, de tudo o mundo tem acesso e consome ao alcance dos dedos e olhos.

O sujeito moderno, portador da liberdade burguesa, que a forma mercadoria lhe proporcionou, está envolto no manto da proteção das redes de computadores. Um sentido aburguesado lhe acomete, por meio da imagem que a subjetividade duplica para si num mundo sem controle e sem poder. Cognitivamente, está havendo uma mudança significativa nas operações cerebrais e estruturais desse sujeito, o grau de cognição está em processo regressivo. Sua condição atual é de absoluta passividade e indiferença diante dos acontecimentos mais banais como das grandes tragédias que assolam o planeta, que são assistidos confortavelmente por meios virtuais. Como afirmou Guy Debord, a sociedade do espetáculo aponta para características que a definem, como o “segredo generalizado” e o “falso sem réplica”[ix].

A sociedade do segredo generalizado é, ao mesmo tempo, uma sociedade transparente. Por todos os poros, a comunicação se tornou um mecanismo de controle integrado, que esconde e revela os segredos mais fúteis e os planos mais escabrosos. Mesmo assim, as pessoas estão pacientemente passivas. O legado da ciência não foi herdado pela humanidade, pelo contrário, o Capital distanciou, gradativamente, a ciência dos trabalhadores, como forma material da produção real de mercadorias. A humanidade usufrui dos resultados materiais da ciência, que se concentram na tecnologia. Os efeitos da maquinaria eletrônica sobre o metabolismo e sociabilidade sociais ainda não foram entendidos em sua dimensão, mostram, objetivamente, até o momento, a insolvência em todos os quadrantes. Hoje, acreditamos que o mundo virtual pode manter as práticas e os mecanismos comportamentais, as mesmas relações objetivas. Não se sabe qual é o mundo concreto e seu movimento real. Acreditamos que a política pode ser empreendida pelos meandros virtuais.

Sem capacidade de replicar aos reais fatos que permeiam o show virtual tecnológico, as sociedades mergulham no mundo espiritual das redes de computadores. Impotentes, veem o mundo como um imenso espetáculo; espectadores que somos, pagamos para assistir aos nossos horrorosos espetáculos da morte social, protegidos pelas telas. Todos parecem se apegar à crença de que as relações sociais voltarão à sua normalidade, até mesmo após a pandemia, parece que temos a crença de que a sociedade reencontrará seus mecanismos objetivos de organização das suas bases sociais e políticas.

O mundo virtual atingiu também as religiões, que se viram sucumbidas e atraídas pela possibilidade de praticar sua espiritualidade virtualmente, como se fosse equivalente ao modo objetivo de sua organização social. Sua capacidade de romper o sistema é quase inglória, sem efeito e, cabalmente, foram absorvidas pelas estruturas do Capital e sua lógica global tecno-científica. É bem verdade que os meios de comunicação tinham absorvido o modo de ser das religiões, transformando-as em produtos da indústria cultural das massas.

Em seus manuscritos, Walter Benjamin percebera o poder do Capital em absorver todas as religiões e transformando-se numa espécie de meta-religião. “Em primeiro lugar, o capitalismo é uma religião puramente cultural, talvez até a mais extremada que já existiu. Nele, todas as coisas só adquirem significado na relação imediata com o culto; ele não possui nenhuma dogmática, nenhuma teologia. Sob esse aspecto, o utilitarismo obtém sua coloração religiosa”[x]. Eis que as tecnologias virtuais igualaram a comunicação em todas as esferas sociais, conexão aos mesmos mecanismos de controle e aos mesmos fundamentos da sociedade produtora de mercadorias.  É por isso que “O capitalismo é a celebração de um culto sans trêve et sans merci (sem trégua e sem piedade). Para ele, não existem “dias normais”, não há dia que não seja festivo no terrível sentido da ostentação de toda a pompa sacral, do empenho extremo do adorador. Em terceiro lugar, esse culto é culpabilizador. O capitalismo presumivelmente é o primeiro caso de culto não expiatório, mas culpabilizador”[xi].

O Capital foi erigido à condição suprema que subsumi todas as formas simbólicas e imateriais, atingiu seu ápice com a inteligência artificial e dá início à sua derrocada irreversível, numa insolvência social gigantesca, cujo sujeito moderno derrete a olhos vistos, sob todos os aspectos, ele não se situa em nenhum parâmetro no interior do sistema mundial do Capital, em rota de colisão com sua lógica interna de contradição insolúvel. Os mecanismos do capital indicam a proximidade com seu limite absoluto, para além do qual não há mais vida para o próprio Capital. E o sujeito da virtualidade é a virtualidade do sujeito, exposto à potencialidade global anônima, diluído nas espiritualidades dissipadas em nuvens de crenças e religiões que, concretamente, se veem também aderentes ao aparato eletrônico que paira pelos ares.

 

Notas

[i] MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Tradução Sérgio Tellaroli. São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2012.

[ii] We Are Social Inc., Legal & Privacy. Endereço: https://wearesocial.com/digital-2021. Dados relativos ao último trimestre de 2020 e início de 2021.

[iii] Idem.

[iv] Idem.

[v] Idem.

[vi] Idem.

[vii] Idem.

[viii] Idem.

[ix] DEBORD, Guy (b). Comentários sobre A sociedade do espetáculo. In A sociedade do espetáculo e outros textos de Guy Debord, www.terravista.pt/ilhadomel/1540, 2003, disponível em http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/comentariosse.pdf, acesso em 15/01/2018.

[x] BENJAMIN, Walter. O capitalismo como religião. Tradução Nélio Scheinder, Renato Ribeiro Pompeu. São Paulo: Boitempo, 2013. (Marxismo e literatura)

[xi] Idem.

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Atanásio Mykonios

Professor adjunto da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - Campus JK. Líder do Grupo de Pesquisa Trabalho, Tecnologia e Educação - TTE. Fundador do CEFIL - Centro de Estudos em Filosofia. Fundador do Grupo de Pesquisa Crítica Social, ambos vinculados à UFVJM e CNPQ Coordenador por dois mandatos do Bacharelado em Humanidades - BHU (2010-2012/2016-2018). Docente do Mestrado Profissional Interdisciplinar em Humanidades, na linha de pesquisa Estudos Contemporâneos: Estado, trabalho, tecnologia e relações étnico-raciais. Estudos na área da Teoria Crítica, Crítica da Economia Política, Indústria Cultural e Cultura Virtual. Também é poeta e dramaturgo desde 1981. Possui graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2002), mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2006) e doutorado em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2016).

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