Aniversário da morte de Rudolf Steiner

Aniversário da morte de Rudolf Steiner

“Steiner ocupa uma posição única dentro do esoterismo contemporâneo. Não só pela extensão e diversidade surpreendentes da sua obra, como pela unidade e organicidade desta última, reunida em mais de 350 volumes que abordam de modo genial e inovador praticamente todos os assuntos possíveis e imagináveis para época de seu florescimento.”

Dia 30 de março é o dia do aniversário da morte do filósofo e esoterista austríaco Rudolf Steiner (1861-1915). Apesar de nunca ter sido um “antropósofo”, nem de ter constituído uma relação concreta com o movimento antroposófico além da amizade com algumas pessoas desse meio, nutri uma verdadeira simpatia pela Antroposofia, criada por Rudolf Steiner, e a estudei por um tempo significativo. Hoje, sinto-me bastante distanciado da visão de mundo antroposófica, assim como discordo de certos aspectos filosóficos subjacentes a ela, não obstante, permanece a admiração pela grandeza das contribuições de Steiner, as quais beneficiaram e beneficiam ainda a sociedade de inúmeras formas.

A meu ver, Steiner ocupa uma posição única dentro do esoterismo contemporâneo. Não só pela extensão e diversidade surpreendentes da sua obra, como pela unidade e organicidade desta última, reunida em mais de 350 volumes que abordam de modo genial e inovador praticamente todos os assuntos possíveis e imagináveis para época de seu florescimento. Trata-se de um edifício harmonioso, imponente e belo, construído sob alicerces firmes, e é difícil não pressentir uma energia avassaladora animando-o, uma torrente viva cuja origem é enigmática. É também variado e amplo o rol de esoteristas influenciados por essa obra, direta ou indiretamente: C. Morgenstern, M. Scaligero, D. Roché, W. Kandinsky, B. Muraviev, V. Tomberg, A. Xul Solar, R. MacDermott, entre outros.

De forma bastante resumida, como Steiner desenvolveu seu pensamento na direção da Antroposofia? Na juventude, ele chamou a atenção do mundo cultural europeu para o valor da obra científica de J. W. Goethe, o grande poeta, romancista e estadista alemão. Depois disso, em busca de autonomia filosófica e em luta contra os limites que a filosofia kantiana pretendia colocar ao conhecimento humano, Steiner desenvolveu uma filosofia a respeito do “pensar-sobre-o-pensar”, na qual a pura essencialidade do pensar desdobrado sobre si mesmo implica no fundamento da cognição espiritual; esta autofundamentação reflexiva, não condicionada por nada exterior a si mesma, constitui também o alicerce da liberdade humana. Assim estavam lançadas as bases epistemológicas para Steiner formular mais tarde sua concepção esotérica da maturidade, a Antroposofia, a qual já era exposta com independência dentro dos círculos da Sociedade Teosófica, da qual ele saiu por considerar-se cristão rosacruz e ocidental.

Sensível às exigências impostas pela ciência e pelo pensamento evolucionista de seu tempo, Steiner almejava fazer do esoterismo uma ciência e, inversamente, da ciência uma gnose, com o objetivo de superar tanto o materialismo vigente no meio científico (arimânico) quanto o sentimentalismo reinante nos círculos místicos (luciférico), equilibrando ambas as tendências em uma síntese (Cristo); por isso chamou a Antroposofia de Ciência Espiritual, a qual traria conhecimentos sobre a cosmologia, antropologia, cristologia e muitos outros campos, através de uma pesquisa espiritual feita sob critérios rigorosos.

Em um contexto em que a ciência se desvinculava cada vez mais da religião e da tradição esotérica, Steiner se afirmou cristão esotérico, e perscrutando com uma visão espiritual profunda as religiões e mistérios antigos, constatou no advento do cristianismo o evento central da evolução da terra e da humanidade ao possibilitar a autoconsciência e a liberdade para todos. Como escreveu certa vez Raymond Abellio a respeito:

… Rudolf Steiner (…) viu com razão no nascimento de Jesus a irrupção, no Ocidente, da ideia da liberdade. A religião hebraica mantinha aberta a transcendência de Deus e Jesus vem, num certo sentido, transbordar e fechar essa transcendência: a partir de então, Deus e o homem não estão mais numa relação de senhor e escravo ou de autoridade e submissão, mas sim como pai e filho, num face a face de confrontação e oposição, pois o que o filho almeja é por sua vez tornar-se pai. É um completo engano pensar no cristianismo, em sua essência, como uma religião de escravos… (…) Cumprindo e abolindo a Torá em nome da liberdade interior do homem, Cristo igualmente abraça, transfigura e mina do interior o utilitarismo e a eficácia do gênio grego assimilado desde sua época pelo gênio romano. (In: “Sol invictus”, trad. parcial G. Leitão).

Ao mesmo tempo em que enxergava o Espírito presente em todo o cosmos e no devir da história universal, R. Steiner foi um esoterista prático e um homem do começo do século XX. Suas preocupações eram voltadas para temas como a organização social e econômica, a educação moderna, a renovação espiritual da medicina, a arte, a arquitetura etc. E muito antes de toda esta onda de ambientalismo presenciada atualmente na mídia e na sociedade, Steiner já defendia a necessidade de uma agricultura livre de agrotóxicos e harmônica com a natureza. Inclusive, poucos sabem disso, defendeu o perspectivismo e individualismo morais de F. Nietzsche antes que a filosofia oficial reconhecesse a originalidade deste espírito atormentado e rebelde, emblema do subjetivismo radical da modernidade. Por isso tudo, lembramos e celebramos a figura de Steiner neste dia.

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Daniel Plácido

Professor de filosofia. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP; Especialista em História pela PUC; Cursa mestrado em Filosofia pela UFU.

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