Nietzsche e a Loucura de Ernesto

Nietzsche e a Loucura de Ernesto


Como tudo isso se liga ao globalismo? Não existe globalismo, logo, nada que Ernesto fala sobre isso faz sentido algum.

Meu objetivo é fazer uma breve leitura de um texto escrito pelo agora (graças a Deus!) ex-chanceler Ernesto Araújo intitulado Globalismo: uma visão a partir do pensamento de Nietzsche[1]. Nesta leitura, irei expor a fragilidade de Ernesto quanto à sua leitura de Nietzsche, bem como os saltos argumentativos empreendidos pelo mesmo ao longo do texto cujo efeito é meramente desinformar. Entendo que seu modo de argumentar é um procedimento comum dos pretensos estudiosos dessa direita a qual Ernesto defende e da qual faz parte. Devido ao nosso objetivo ser a leitura de Nietzsche, não tocaremos em alguns outros temas a não ser que sejam relevantes diretamente para nossa exposição.

A primeira coisa que Ernesto afirma acerca de Nietzsche é uma imprecisão imperdoável para qualquer pessoa que pretenda falar desse autor com um mínimo de seriedade e rigor, a saber, ele supõe que faz sentido falar do livro forjado pela irmã de Nietzsche, Vontade de Potência, como um livro real. Ele afirma: é um livro que dizem que não existe, pois teria sido composto a partir de fragmentos escolhidos pela irmã de Nietzsche (…) mas o livro existe, uma vez que influenciou, como sabemos, vários movimentos.

O que há de verdade nisso tudo? Simples: após o colapso de Nietzsche, ele foi internado e morreu anos depois. Sua irmã, notória antissemita, tornou-se responsável pelo espólio do autor. Ela forjou algumas cartas e alguns fragmentos, criando assim um livro que tornaria Nietzsche um antecessor do nazismo. Pesquisadores posteriores comprovaram o caráter fraudulento da obra e a edição completa da obra do filósofo recoloca todos os textos do suposto livro em seus devidos lugares, nos fragmentos póstumos. O livro não existe, há nele distorções e o ânimo do projeto é antissemita. Qualquer influência que esse texto possa ter tido no passado não pode derivar da filosofia de Nietzsche.

Ernesto usa o fragmento NF – 1888, 25 [1][2] para construir uma profecia nietzschiana que se realizaria no nazismo e no comunismo. O título do fragmento é “A Grande Política”. As afirmações de Ernesto giram em torno desse texto. Inicialmente ele afirma que o pensamento desse autor é uma descrição desse fenômeno do niilismo e uma superação do niilismo. Afirma ainda Ernesto que o niilismo tenta recuperar uma moral sem uma base transcendente (aqui residiria a fraqueza do niilismo) tendo em vista a liberdade do homem. Esta nova moral, diz Ernesto, ao tentar trazer liberdade para o ser humano, acaba trazendo opressão, como nos casos do feminismo que impede homens de olhar para uma mulher sem ser acusado de estuprador (ele disse isso!), o movimento antirracista e os movimentos ecológicos.

O niilismo é um tema complexo da obra de Nietzsche e não caberia uma análise exaustiva dele nesse texto. Tentarei apresentar uma síntese tomando como fonte principal o Dicionário Nietzsche elaborado e publicado pelo GEN – Grupo de Estudos Nietzsche.[3] Segundo este estudioso, o niilismo é uma doença da vontade, uma anarquia e empobrecimento dos instintos, ou seja, um fenômeno ligado a uma diminuição da potência vital das pessoas. Na obra tardia do filósofo temos três tipos de niilismo: incompleto, completo e extremo. O primeiro tipo compreende um período que vai do platonismo até a crise moderna dos valores cristãos. Naturalmente que o cristianismo é o grande movimento niilista neste período, algo ignorado por Ernesto. A moral divina, suposta por ele como caminho para superação do niilismo, é ela mesma niilista. Afinal, do ponto de vista nietzschiano, niilismo é sacrificar o real ao nada, seja o nada Deus, seja o nirvana. Negar a vida em nome de um ideal é niilismo e isso é a marca do Ocidente, pelo menos desde Platão.

O niilismo completo, típico do século XIX, se divide em niilismo passivo e niilismo ativo. No primeiro caso temos um esgotamento da potência do espírito devido à compaixão, enquanto o niilismo ativo implica uma atitude mais destrutiva, chamada por Nietzsche de budismo europeu da ação. Quando os impulsos de destruição se intensificam, levando a uma vontade de nada, temos o niilismo extremo. A superação do niilismo se daria no futuro, com filósofos criadores de morais não mais de base transcendente e, portanto, ainda niilistas, mas sim com base na vida e no mundo real, o mundo da imanência, este mundo que experimentamos agora. Ernesto, pois, sequer caracteriza honestamente o conceito e não podemos afirmar que isso é ignorância. Esse é o caminho escolhido por ele para enaltecer o cristianismo como resposta para o problema, quando, na verdade, desde o começo, esta religião faz parte do niilismo que Nietzsche critica.

Em seguida, Ernesto fala da morte de Deus. Inicialmente, afirma que a frase não é de Nietzsche, mas de um personagem citado na Gaia Ciência. A referência aqui é ao aforismo §125, no qual Nietzsche coloca na boca de um homem louco uma longa reflexão sobre a morte de Deus. Porém, que isso mostre não ser essa tese a voz de Nietzsche é falso, posto que em várias passagens de sua obra segue o autor falando da morte de Deus como uma ideia sua. Nessa mesma obra o aforismo 108 é exemplo de Nietzsche falando desse tema sem recorrer e uma outra voz além da sua própria. Para Ernesto a ideia da morte de Deus é base para o marxismo-leninismo e o nazifascismo. Sem a morte de Deus, tais movimentos não seriam possíveis. Com a morte de Deus, o antropoteísmo daria lugar ao antropocentrismo radical que implicaria a tentativa de construção de um Além-do-Homem como homem soviético ou a concepção nazista de homem superior. Neste momento de seu texto, Ernesto cita, de um modo que me parece bastante aleatório, Dostoievski e a frase “se Deus não existe, tudo é permitido.” e depois Lacan, lido por ele em Zizek “se Deus não existe, nada é permitido”. Cito estes parágrafos pois eles me parecem um exemplo bastante divertido do modo de Ernesto pesquisar: ele não foi buscar a origem da frase de Lacan (Seminário 17), em seu contexto próprio, mas diz se identificar com ela.

Depois disso, Ernesto faz um movimento irônico e impreciso. Ele afirma que a morte de Deus não é estranha ao cristão, para o qual Deus morre e ressuscita. Depois ele cita as cartas escritas pelo filósofo pouco depois de seu colapso nas quais assina ora como crucificado, ora como Dionísio. Dois “deuses” de morte e ressureição. Com isso ele pretende apontar que há em Nietzsche essa angústia profunda que mascararia um paracristianismo. Feita esta caracterização da morte de Deus segundo Ernesto, vejamos como entender a morte de Deus na filosofia de Nietzsche, para além do conspiracionismo.

Em primeiro lugar, Nietzsche, de forte formação protestante, sabe o que é a morte e ressureição de Cristo. Não é dessa morte de Deus que ele está falando. Em segundo lugar, o cristianismo se pauta, ao longo de sua história, pelo que Nietzsche chama de vontade de verdade, um impulso de buscar o verdadeiro a qualquer custo. Esta vontade de verdade é o que move a ciência e graças a ela, temos descobertas que colocam a crença em Deus em dúvida. Com isso a moral fundada nessa crença também passa a ser desacreditada, de modo que surge a ameaça do niilismo e a necessidade de transvaloração dos valores. Em resumo, não é Nietzsche que “mata” Deus, é a própria cristandade que o faz ao levar as últimas consequências a vontade de verdade.

Qual a ligação de tudo isso com nazismo e marxismo? Não podemos chamar o nazismo de um movimento ateísta, não há nele a pregação da morte de Deus. No socialismo temos um ateísmo na medida em que se aponta a dimensão opressiva das estruturas religiosas aliadas aos poderes dominantes. É importante deixar claro que o ateísmo não é algo imposto, deriva de vários fatores, sendo o desenvolvimento científico uma delas. Gosto de dizer que o avanço científico não tornou a religião impossível, na verdade tornou o ateísmo plenamente possível, mas isso é outra discussão.

Os dois últimos termos que Ernesto distorce do pensamento de Nietzsche são fisiologia e política. Ernesto cita a expressão “Eu trago a guerra entre Aufgang e Niedergang”, presente no fragmento póstumo já citado. Tais termos são encontrados juntos na obra de Nietzsche somente 3 vezes: na primeira parte do Zaratustra (A criança com o espelho), no NF – 1888, 25 [1] e no Ecce Homo (Por que sou tão sábio §1). Aufgang e Niedergang significam ascensão e declínio, respectivamente. Para Nietzsche ascensão liga-se à vontade de vida e declínio liga-se ao que ele chama de vingança contra a vida. Esta seria a verdadeira guerra para além das denominações políticas do momento (classe, povo ou raça). Ernesto converte esse fragmento numa reflexão quase profética de Nietzsche acerca do século XX. Ele entende Niedergang como a destruição dos valores sagrados e aponta Lênin como exemplo de alguém que fez essa destruição.

Nietzsche menciona ainda a criação de um partido forte para a grande política. Da frase criar um partido da vida, Ernesto passa a ideia de partido único para forçar ainda mais seus interesses e é aqui onde ele menciona grande política e fisiologia. Na sua leitura o partido político totalitário vai impor o fisiologismo. Notem, leitoras, ele salta de fisiologia – termo que tem um sentido específico no pensamento de Nietzsche – para o conceito de fisiologismo partidário. Diz ainda que a política brasileira teria colocado a fisiologia no trono e estaríamos mergulhados nessa noite do fisiologismo só combatido pelas democracias liberais na medida em que nelas subsiste algo da presença de Deus. É preciso então, esclarecer o que é a grande política e a fisiologia no pensamento do filósofo alemão para entendermos claramente o tamanho do absurdo dito por Ernesto.

O fragmento se divide em duas partes: na primeira ele fala sobre a guerra entre levante e declínio (Aufgang e Niedergang que Ernesto deixa em alemão como se quisesse dar um destaque que os termos parecem não ter no texto de Nietzsche). Ele afirma trazer uma guerra diferente das guerras conhecidas: entre povos ou classes, mas sim a guerra através dos absurdos de povo, raça, classe, profissão, entre vontade de vida e vingança em relação à vida. Em resumo, nessa primeira parte Nietzsche aponta os problemas da política de seu tempo. O papel do cristianismo nesse cenário é o de ter tratado a humanidade com um disparate fisiológico e daí deriva a decadência, ou seja, minimizar o aspecto instintivo dos seres humanos cria distúrbios fisiológicos.

Na segunda parte temos quatro princípios enunciados acerca da grande política. O primeiro afirma que a grande política busca transformar a fisiologia em senhora sobre todas as outras questões, criar um poder capaz de cultivar a humanidade como um todo se opondo ao elemento que degenera a vida; o segundo enuncia uma guerra contra o vício e antinatureza, ou seja, contra o cristianismo; o segundo (erro do autor) fala sobre a criação de um partido da vida forte para a grande política que transforma a filosofia em senhora sobre as questões (assim como a fisiologia) e que superaria a degeneração. O último princípio diz apenas: O resto segue-se daí.

A grande política é um termo que aparece em várias obras e fragmentos. Destacarei aqui o aforismo 208 de Além do Bem e do Mal. Nele temos a tese de uma Europa para além das nações, como força a se constituir na luta contra, vejam vocês, acúmulos de forças na Alemanha e na Rússia. Uma Europa dividida em nações é fraca contra essas coisas, é preciso uma Europa unida. Nietzsche critica os países que desenvolveram décadas depois nazismo e comunismo, respectivamente. Não podemos ver nesses países e nos movimentos que eles originaram a grande política enunciada pelo filósofo.

Que dizer sobre a fisiologia então? O sentido mais comum do termo mostra que há uma ligação entre a condição fisiológica do indivíduo ou de um povo e o modo como este indivíduo ou povo pensam, vivem, criam valores. Pessoas e povos doentes vivem a partir de valores doentes, pessoas ou povos fortes vivem valores saudáveis. Saudável é aquilo que afirma a vida e doentio aquilo que nega ou despreza a vida. O cristianismo despreza a vida, é caracterizado por valorizar estados fisiológicos mórbidos. No contexto da grande política a fisiologia parece ser entendida como base para formação de um povo forte e isso significa valorizar aquilo que fortalece a vida. Desde o cultivo de bons hábitos até a superação do dualismo metafísico se encaixam aqui. Absolutamente nada disso tem ligação com fisiologismo partidário brasileiro, tampouco com algo desesperador ou sombrio. Para Nietzsche, as crenças de Ernesto são sombrias, posto que este enaltece o Deus cristão e a crença no nacionalismo. Ernesto se encaixa no polo liberal-conservador criticado por Nietzsche.

Como tudo isso se liga ao globalismo? Não existe globalismo, logo, nada que Ernesto fala sobre isso faz sentido algum. Nietzsche não fala acerca de uma sociedade una global, ele fala de uma Europa unida para se contrapor ao que vem da Alemanha e da Rússia, portanto, se comunismo é globalista e Nietzsche se opõe ao que vem da Rússia, ele não pode ser visto como um influenciador dos comunistas segundo a “lógica” de Ernesto.

Essa análise breve que fiz deixa claro, sobretudo, o procedimento falacioso de Ernesto argumentar. Basta fazer ligações arbitrárias, apresentar uma mistura estranha de verdade e mentira e agir em nome de uma agenda pessoal ao invés de analisar honestamente o que um autor diz. Ele poderia criticar Nietzsche sem forjar todos estes absurdos, mas o objetivo é defender teorias de conspiração e desse modo a busca da verdade se corrompe. Falta ao Ernesto vontade de verdade.

[1] ARAÚJO, Ernesto. Globalismo: uma visão a partir do pensamento de Nietzsche. In: Cadernos de Política Exterior, v. 5, n. 8 (ago. 2019). Brasília: FUNAG, 2019, p. 5-14.

[2] NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos Póstumos: 1887-1889. Tradução: Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

[3] O autor do verbete é o pesquisador Claudemir Araldi.



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Derley Menezes Alves

Doutor em ciências das religiões pela UFPB, mestre em filosofia pela UFPR, professor de ensino médio e superior. Interesses: Budismo, Filosofia da Ciência, Ciência & Religião, Quadrinhos.

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