Fernando Pessoa e o Anticristo Supracamoniano

Fernando Pessoa e o Anticristo Supracamoniano

“O Antichristo deve ter uma estatura espiritual condigna com o Mestre, a quem se oppõe. Não deve ser, por uma casualidade, ou por uma mera consequencia, autor de damnos e de males para o christianismo. Deve ser comparável a Christo na sua grandeza, embora se entenda que emprega para mal essa grandeza.” (Fernando Pessoa)

No início da década de 1980, Joel Serrão, estudioso de Fernando Pessoa, dedicou algumas passagens de seu extenso ensaio introdutório no volume Ultimatum e Páginas de Sociologia Política a tentar decifrar o sentido de determinadas aparições do Anticristo nos escritos do autor português. Qualificando-as então como “parte integrante da arquitetura do sistema mental” de Pessoa (SERRÃO in PESSOA, 1980: 71), Serrāo foi o primeiro pesquisador a tratar das contingentes manifestações do Anticristo na literatura pessoana, rompendo, assim, o silêncio guardado por alguns escritos que há muito estavam confinados à clausura do espólio do poeta, como o excerto a seguir.

“É aceitável o critério que coloca o Reino do Anti-Cristo para depois do Quinto Império. Esse Anti-Cristo significa a dissolução da nossa civilização, que fatalmente se há-de dissolver, como todas, e tudo neste mundo […]. Curioso caso interpretativo (RL): considerar o Império do Espírito Santo como o da Morte, e seguido ao do Anti-Cristo, que por sua vez segue ao do Verbo.” (PESSOA, 1978: 185, 186)

Na esteira da leitura sugerida por Serrão, chama atenção a correlação por ele observada entre o Anticristo e dois conceitos fulcrais da poética pessoana, quais sejam, o Super-Camões (SERRÃO in PESSOA, 1980: 67) e o Quinto Império (SERRÃO in PESSOA, 1980: 95), o que, por seu turno, enseja a admissão do Anticristo no panorama crítico da poética de Pessoa, de modo a permitir que a presença daquela figura em determinados fragmentos de ensaios e poesias pudesse ser julgada, a partir desse labor primordial, não como um eventual desatino manifesto em textos de duvidoso mérito literário, mas como uma das partes que compõem o todo heterogêneo característico da obra pessoana. Com efeito, Serrão não só afirma que “o Anti-Cristo ou o Super-Camões, além de entre si claramente comunicarem, são sempre pontos de irradiação e de convergência” (SERRÃO in PESSOA, 1980: 75), como não hesita em discernir na escrita do poeta da Mensagem concepções como a de um “Portugal (de névoa?) a construir pelo Super-Camões de mãos dadas com o Anti-Crsto e com ‘El Rei D. Sebastião’” (SERRÃO in PESSOA, 1980: 88).

Trazidas do referido ensaio contido em Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, essas citações resultam da leitura que Joel Serrão propõe para um texto redigido por Fernando Pessoa no período imediatamente anterior ou durante a Primeira Guerra Mundial, como se pode depreender pela referência que nele se faz à ideia, difundida na época, de que o Imperador Guilherme II era, na verdade, o Anticristo (COOPER, 1996: 11). Qualificado por Serrão (in. PESSOA, 1980: 71) como um “documento de importância fundamental” para o entendimento da noção pessoana do Anticristo, este texto, de natureza epistolar, é o mais extenso testemunho em prosa do interesse de Pessoa naquele personagem – embora o texto referido não seja ficcional, é interessante lembrar que, segundo o próprio Pessoa, a prosa é uma modalidade na qual “é mais difícil de se outrar” (PESSOA, 1966: 106), o que corroboraria, assim, a autenticidade das opiniões emitidas pelo poeta.

“No número de hoje do jornal, que V. Ex.ª superiormente dirige, inseriu um “Mario” pseudonymo umas notas curiosas sobre a relação entre a personalidade do Imperador Guilherme Segundo e a Besta apocalyptica, o Anticristo da prophecia. A relação, segundo este auctor, é de identidade. O argumento numerologico, com que o prova, é curioso, como curiosos são, a par d’elle, outros argumentos da mesma indole e identica tendencia, que varios escriptores do estrangeiro, francezes e sobretudo inglezes, teem trazido para a publicidade.
Por curiosos que sejam, porém, esses argumentos, e patente que se affigure a identidade estabelecida por elles, importa, creio, que se lhes contraponha uma consideração que o acurado studo do assumpto e a exacta medição do thema necessariamente geram.
O imperador Guilherme carece de estatura psychica para que possa ser contraposta a Christo, em qualquer sentido da contraposição.
No Antichristo dos profetas, embora a sua natureza e modo de apparecimento se discutam, são essenciaes trez condições. Ha de ser, em primeiro logar, conscientemente o Antichristo; não basta que obre como se suppõe que deva obrar o Antichristo – ha de apresentar-se como o inimigo de Christo ao obrar como tal. Como Christo é, essencialmente, uma força espiritual, o Antichristo ha de ser, em segundo logar, uma força espiritual tambem; por onde se ve que a allusão aos seus exercitos (se assim a prophecia se applica) não se deve entender de exercitos de soldados, mas de fieis, não de uma guerra no espaço onde estão os corpos, mas no tempo onde estão as ideas. E como Christo é o representante da Intuição ou do Sentimento, como guia e norte da Vida, o Antichristo deve ser o representante da Intelligencia, que [é] o inimigo do Sentimento. Isto entendem os occultistas, quando dizem de Christo que ele é femea, porque o Sentimento é, na figuração dos Rosa-Cruz, entendido como feminino, e esquerdo. Nem outro sentido tem a attribuição ao anjo rebelde de o nome de Lucifer, o que Traz a Luz, symbolo patente da Intelligencia. Sabem tambem os versados nestes assumptos esconsos que o numero 666 era significador da “Intelligencia Material”, que é como se designava a intelligencia baseada nos processos extra-mysticos, isto é, na analyse, na experiencia e no raciocinio — a Intelligencia scientifica, portanto, ou, na verdade, a Intelligencia propriamente dicta.
Em terceiro logar, o Antichristo deve ter uma estatura espiritual condigna com o Mestre, a quem se oppõe. Não deve ser, por uma casualidade, ou por uma mera consequencia, autor de damnos e de males para o christianismo. Deve ser comparável a Christo na sua grandeza, embora se entenda que emprega para mal essa grandeza.
O pobre Imperador Guilherme, que nem tem a statura, parca já para a comparação com Christo, de um Cromwell ou de um Napoleão, a nenhuma d’estas condições satisfaz.
[…]
Com esta justa interpretação já os inglezes acertaram. Erraram porem, com a applicação, identica ao de “Mario” de □ Kaiser.
É com effeito certa a data marcada pelo propheta. Mas não é da Allemanha que vem o Antichristo. Aquelle paiz que lançou os Navegadores pelo mar fora, e começou o seu direito á existencia na civilização pela obra, essencialmente de Intelligencia, das descobertas — esse paiz o ha de lançar ao mundo. Tal é o verdadeiro sentido, aqui pela primeira vez revelado (porque a Hora se approxima) do “Regresso do Rei Sebastião”, que a mystica popular até agora se enganou em tomar apenas (porque também o é) como symbolo do renascimento da Pátria.
Todo o studioso do occultismo sabe que, além de se representar por Lucifer, a Intelligencia se representa, ainda mais commummente por A SERPENTE.
Porque é então que Portugal é figurado apenas como A SERPENTE nas strophes do Bandarra. Será apenas por se lhe attribuir a regencia serpentina da cauda do Sagittario, signo que impera sobre as Hespanhas? Não será mais occulta a attribuição do nome?
A advertencia fica feita.” (PESSOA, 2011: 113-114).

“E é justamente por esse viés esotérico que, na terceira parte de seu argumento, Fernando Pessoa irá explicitamente equiparar a vinda do Anticristo ao retorno de D. Sebastião, promovendo, com isso, uma espécie de satanização do mítico redentor do povo lusitano.”

A argumentação de Fernando Pessoa pode ser segmentada, grosso modo, em três partes: na primeira, ele noticia e contesta a teoria, publicada anonimamente em um periódico desconhecido, de que o Imperador Guilherme II seria o Anticristo; na segunda, o poeta justifica sua refutação daquela hipótese com base na inaptidão mental do Imperador e em três fundamentos categóricos, ainda que predominantemente subjetivos, apresentados em uma breve anatomia do Anticristo. Um desses critérios, todavia, sobressai-se por dar voz a um discurso de notório pendor esotérico que, pelo teor das correspondências nele estabelecidas, revela-se conceitualmente tributário de uma tradição que apreende o satânico enquanto instância do hermetismo – como é visto, aliás, nos fragmentos do Tratado da negação subscrito por Raphael Baldaya, uma das muitas personalidades heteronímicas de Pessoa de menor ressonância: “Lúcifer – o que traz a luz é o nome do símbolo da Negação: a lucidez é a negação. Adoremos a Satanás na sua obra, a Matéria. O Raciocínio é anti-divino por natureza. Por isso devemos amar e cultivar o Raciocínio” (apud LOPES, 1990, p. 326).

E é justamente por esse viés esotérico que, na terceira parte de seu argumento, Fernando Pessoa irá explicitamente equiparar a vinda do Anticristo ao retorno de D. Sebastião, promovendo, com isso, uma espécie de satanização do mítico redentor do povo lusitano. Trata-se, indiscutivelmente, de um episódio que poderia ser reputado como disparatado e improvável, a julgar pela legitimada associação entre Cristo e o Encoberto na obra pessoana, porém, diante da lucidez e contundência das palavras do poeta, não há como negligenciá-lo.

Da mesma forma, considerando que “o Super-Camões realizou-se, enfim, na identificação com El-Rei D. Sebastião” (SERRÃO in PESSOA, 1980: 59), não se pode deixar de assinalar que a releitura do mito sebástico presente na singular arguição de Fernando Pessoa sobre o Anticristo abrange, por certo, também aquele “grande Poeta proximamente vindouro” (PESSOA, 1980: 45), anunciado nas páginas de A Águia, a quem caberia a missão de conduzir a poesia de Portugal ao seu zênite. Em verdade, na extensa crítica que fez dos escritos políticos de Pessoa, Joel Serrão já havia defendido o reconhecimento do Super- Camões “em transe de metamorfose para Anti-Cristo” (SERRÃO in PESSOA, 1980: 62), uma acepção que, por seu turno, mostra-se bastante sugestiva quando confrontada à representação que Pessoa sabidamente fazia de si, a partir de sua interpretação do sebastianismo, como o “poeta eleito” (PESSOA, 2011: 169). De fato, Pessoa sinaliza, em mais de uma ocasião, que o ano de seu nascimento marca a chamada Segunda Vinda do Encoberto. No texto que segue, por exemplo, datado de 29 de maio de 1928, a argumentação do poeta chega a ganhar ares de uma velada revelação: “No Terceiro Corpo das suas Prophecias, o Bandarra annuncia o Regresso de D. Sebastião (pouco importa agora o que elle entende por esse “regresso”) para um dos annos entre 1878-1888. Ora neste ultimo anno, (1888) deu-se em Portugal o acontecimento mais importante da sua vida nacional desde as Descobertas; comtudo pela propria natureza do acontecimento, elle tinha de passar inteiramente despercebido (PESSOA, 2011: 169). Por essa ótica, pode-se mesmo aventar a hipótese, sem dúvida provocativa, de que o poeta tenha deliberadamente se imaginado, mesmo que por um átimo literário, como o Anticristo lusitano – o adversário por direito de Cristo – que ele mesmo profetizara naquele texto composto em algum momento da década de 1910.

Esse sebastianismo oriundo de uma raiz satânica não floresce tão proeminente em outros escritos da lavra de Fernando Pessoa – o que certamente contribuiu para que a pioneira investigação de Joel Serrão, em 1980, não lograsse atestar a pertinência do assunto a ponto de firmá-lo no horizonte dos estudos pessoanos nos anos que seguiram. No entanto, uma leitura atenta da obra pessoana não deixa dúvidas quanto ao fato de que, nos poemas em que é aludido, o Anticristo está enlaçado nas temáticas sebastianista e pentaimperial.

Esta breve nota busca ser, pois, tanto um pequeno tributo à descoberta anunciada por Joel Serrão há mais de quatro décadas como um auspício para investigações futuras que tencionem desvendar a enigmática presença do Anticristo nos escritos de Fernando Pessoa.

Referências bibliográficas:

 

COOPER, J. C (Ed.). Dictionary of Christianity. London and New York: Routledge, 1996.

LOPES, Teresa Rita. Pessoa por conhecer – roteiro para uma expedição. Lisboa. Estampa, 1990.

PESSOA, Fernando.  Páginas  Íntimas  e  de  Auto-Interpretação  (Textos  estabelecidos  e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho). Lisboa: Ática, 1966.

                               . Sebastianismo e Quinto Império (Edição, introdução e notas de Jorge Uribe e Pedro Sepúlveda). Lisboa: Ática, 2011.

                               . Sobre Portugal – Introdução ao problema nacional (Recolha de textos de Maria  Isabel  Rocheta e Maria Paula Morão.  Introdução  organizada  por Joel  Serrão.) Lisboa: Ática, 1978.

                               . Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980.

                               . Ultimatum e Páginas de Sociologia Política (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática,1980.

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Luciano de Souza

Bacharel em Literatura Portuguesa pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestre e doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo. Pesquisador do satânico na literatura e, mais especificamente, na obra de Fernando Pessoa. Possui artigos que versam o tema publicados em diversos periódicos. Ao aprofundar seus estudos da poética pessoana, interessou-se pelo esoterismo ocidental, temática que pretende explorar em trabalhos vindouros.

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