O Caminho Direto: Ibn ‘Arabî, Jacob Boehme e Ramana Maharshi

O Caminho Direto: Ibn ‘Arabî, Jacob Boehme e Ramana Maharshi


Ibn ‘Arabî, Jacob Boehme e Ramana Maharshi, (…) Nenhum deles teve, pelo menos no começo de sua jornada, o que pode se chamar de “mestre” no sentido convencional da palavra, portanto, sua iluminação espiritual foi direta, espontânea, ou, se se quiser, pela Graça divina.(…)

Riffard considera que na discussão sobre o fundamento do Esoterismo existem duas grandes posições: a dos defensores da tradição, os tradicionistas, que sustentam esse fundamento em uma metafísica divina, eterna e universal; e a dos diretistas, os quais defendem não o conhecimento transmitido, e sim um contato direto, uma experiência espiritual, a iniciação efetiva ou libertação (RIFFARD, 1996, 44-46).

Conforme exemplos oferecidos pelo próprio P. Riffard, podemos chegar à seguinte distinção: a) tradicionistas: Platão, Plutarco, franco-maçons, chineses mutacionistas e universistas, vedistas, xiitas, Guénon, entre outros; b) diretistas: alquimistas, zenistas, sufis, taoístas, iogues, xamãs, tantristas, maniqueus, entre outros (Idem, ibidem).

Todavia, Riffard acrescenta, a oposição entre as duas concepções não é absoluta, pois a transmissão da tradição tem como pressuposto a iniciação, logo, tradição primordial e experiência espiritual caminhas juntas e são complementares (Idem, ibidem).

A partir dessa colocação inicial, neste texto gostaria de discorrer sobre a segunda posição, a diretista ou a do caminho direto, através do exemplo de três grandes esoteristas, cada um a representar uma tradição e uma época diferentes: Ibn ‘Arabî, Jacob Boehme e Ramana Maharshi, ou seja, sufismo medieval, teosofia cristã renascentista e o advaita-Vedanta contemporâneo, respectivamente. Nenhum deles teve, pelo menos no começo de sua jornada, o que pode se chamar de “mestre” no sentido convencional da palavra, portanto, sua iluminação espiritual foi direta, espontânea, ou, se se quiser, pela Graça divina.

Começarei por Ibn ‘Arabî (1165-1240). De acordo com S. Hirtenstein (HIRTENSTEIN, 2006, 73-83), Ibn ‘Arabî, quando tinha por volta de 16 anos de idade, sem ter tido nenhum tipo de preparo espiritual prévio, ia beber vinho com amigos, após um jantar, quando ouviu dentro de si uma voz sobrenatural, a qual lhe disse que não tinha sido criado para beber. Impressionado, ele retirou-se para um cemitério fora de Sevilha, e ali encontrou um túmulo antigo que lembrava uma gruta, no qual ficou inserido durante quatro dias, praticando a invocação de Deus (dhikr), só saindo de lá para rezar.

Nesse momento, ele teve sua primeira visão extraordinária de três grandes profetas da tradição abraâmica, os quais continuaria a encontrar imaginalmente ao longo da vida: Jesus, seu primeiro mestre, que lhe ordenou a renúncia e o desapego; Moisés, que lhe anunciou que receberia o conhecimento diretamente de Deus, conhecimento esse que está além do intelecto e só pode ser apreendido pelos profetas e santos; e, por fim,  o profeta Muhammad, que lhe abraçou como um porto seguro, fazendo com que estudasse, a partir dali, os ditos proféticos (Hadīth) e o Corão com mestres (Idem, ibidem).

Ibn ‘Arabî, por causa do ambiente familiar (pai e tios), não era estranho aos círculos dos sufis, mas não teve antes dessa iluminação ou abertura citada acima uma relação contínua com um mestre vivo nem nada semelhante.  Depois sim ele teve contato com inúmeros mestres, inclusive entre mulheres, e relatou isso em obras ulteriores (IBN ‘ARABÎ, 2008: 21-49). Ibn ‘Arabî sempre reconheceu a possibilidade singular da iluminação sem qualquer preparação ou treino prévio, pois isso depende exclusivamente da vontade de Deus e da maturidade do aspirante, não obstante recomendava que o caminho mais seguro era através de um mestre tradicional.

Falarei agora de Jacob Boehme (1575-1624), com base no relato de seu discípulo Abraham von Franckenberg (BOEHME, 1994). Depois de acontecimentos misteriosos em sua infância, Boehme virou um jovem aprendiz de sapateiro. Um dia, adentrou na sapataria um sujeito rusticamente vestido, porém com um porte nobre, o qual queria comprar um sapato. Boehme não fez a venda pois não tinha autorização para tal; seu mestre estava ausente. O desconhecido, antes de ir embora, chamou Boehme pelo nome de batismo, “Jacob, Jacob, venha cá”, segurou na sua mão e de seus olhos saiam um fogo vivo. O visitante disse que Boehme, fiel e piedoso, era amado por Deus; que agora era pequeno, mas um dia seria grande e o mundo iria se espantar; que seria perseguido, mas para se manter firme, confiando nas Escrituras e em Deus. E foi embora…

Anos mais tarde, em um belo dia, Boehme estava na sua casa quando, sem razão alguma, começou a perceber nos objetos o seu lado supra-sensorial, como um influxo astral subjacente às coisas. Ele foi para o jardim, onde foi “explorar” sua sensibilidade nova. Posteriormente, entrou numa espécie de êxtase místico, durante sete dias ininterruptos, e foi desta experiência profunda que nasceu sua primeira obra, “Aurora Nascente”; anos depois Boehme ainda teria outro êxtase, que completaria o primeiro. Boehme conta ter visto o fundamento de todas as coisas, o Abismo da divindade, os mundos divinos, as hierarquias angélicas, os mistérios da natureza eterna, a luta entre Cristo e o Anticristo (Idem, ibidem).

Falta ainda comentar sobre o caso de Sri Ramana Maharshi (1879-1950). Segundo A. Osborne (OSBORNE, 1970), o nome natalício de Ramana era Venkataraman, tendo nascido em Tiruchuzi, pequena aldeia no sul da Índia. Aos 12 anos perdeu o pai; aos 16, através de seu tio – o qual retornava de uma peregrinação-, teve uma providencial intuição sobre o monte sagrado de Arunachala, localizado ao sul da Índia, em Tiruvanamalai. Foi aos 17 anos, mesmo sendo um jovem comum, um estudante e amante dos esportes, que teve uma experiência espontânea de iluminação ou liberação, mudando para sempre sua vida. Ao deitar na cama prendendo a respiração como se estivesse morto,  Venkataraman percebeu que o verdadeiro Ser não era o corpo corruptível, tampouco a mente.

O jovem, sem nenhum preparo religioso ou espiritual, teve de forma direta a  experiência da identidade com o Absoluto (Brahman) e a certeza da eternidade do Real, assim como a percepção do caráter relativo do mundo (“maya”). Ele foi uma figura bastante atípica para os padrões hindus, pois não teve um guru, pelo menos não um ser humano.

Após uma série de contratempos, Ramana Maharshi (este é o nome que adotou mais tarde) estabeleceu definitivamente seu ashram em Arunachala, onde até a data de sua morte continuou instruindo discípulos e recebendo visitantes do mundo todo, mantendo sempre sua marca registrada: o olhar silencioso e benevolente, transmitindo uma espécie de influência espiritual. A vida de Ramana foi de uma beleza ímpar, com acontecimentos enigmáticos e milagrosos, expressando um inabalável desapego. Apesar de não ter tido um mestre, seus ensinamentos reproduzem fielmente a tradição do advaita Vedanta de Shankaracharya e outros, de forma clara e direta.

Deste três relatos distintos e ao mesmo tempo similares em vários pontos, posso tirar algumas conclusões um tanto evidentes: a) apesar da figura do mestre ou guru ser sim muito importante dentro da tradição esotérica, ela não pode ser absolutizada, pois é possível uma iluminação espiritual autêntica sem se receber uma transmissão ou iniciação formal; b) Isso também coloca uma reflexão crítica sobre tentativas, nem sempre muito imparciais, de se sair demonizando caminhos espirituais diferentes e que não parecem convencionais, pois, se não se pode aceitar tudo, também não se pode achar que Deus tem que seguir as escolhas ou meios que a gente imagina, afinal, o Espírito sopra aonde quer…

 

Bibliografia

 

IBN ‘ARABÎ, Muhyiddin. Sufis of Andalucia: The Ruh al-Quds and Al-Durat Fakhirah. Londres/Nova Iorque: Routledge, 2008.

BOEHME, Jacob. A sabedoria divina: o caminho da iluminação. São Paulo: Editora Attar, 1994.

HIRTENSTEIN, Stephen. O compassivo ilimitado: a vida e o pensamento espiritual de Ibn ‘Arabî. Rio de Janeiro: Editora Fissus: 2006.

OSBORNE, Arthur. Ramana Maharshi e o caminho do autoconhecimento. São Paulo: Pensamento, 1970.

RIFFARD, Pierre. O Esoterismo. São Paulo: Mandarim, 1996.

Compartilhe em suas redes sociais.

Daniel Plácido

Professor de filosofia. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP; Especialista em História pela PUC; Cursa mestrado em Filosofia pela UFU.

Deixe um comentário