O Hiato Católico no Brasil

O Hiato Católico no Brasil


Na Igreja, vivi a experiência da então Teologia da Libertação. Parecia que a Igreja tinha as condições concretas para salvar o Brasil da ditadura.

Escrevo a partir de minha história no interior do catolicismo. Cresci em uma família católica e ortodoxa. A parte ortodoxa estava na Grécia e a parte católica, no Brasil. A influência maior deveu-se ao catolicismo, fui criado no interior de uma tradição católica francesa. Meu pai, de minoria católica na Grécia, foi formado em escolas de frades franciscanos franceses. Também quando viveu na França, recebeu toda a educação também em colégios católicos, assim como seus irmãos.

Coincidiu, em grande medida, a vida de nossa família com o regime militar, de 1964 a 1985. Meus pais chegaram ao Brasil em 1956. Nos anos de chumbo, ninguém da família sequer citava a condição em que o país se encontrava, mesmo que todos tinham herdado as marcas profundas da II Grande Guerra e de modo mais doloroso, o nazismo em todas as suas faces. Não se discutia, não se falava nada, ninguém tocava em temas sobre política, economia, tortura, censura etc. Meus tios, primos, primas, tias, avó, uma espécie de pacto que seguia seu curso natural.

A fé praticada é a do catolicismo caritativo, orações, Legião Maria, o seguimento de todo o corpo litúrgico com seu calendário anual. Todas as datas importantes eram celebradas e obedecidas à risca. O catolicismo parecia um modo pelo qual a família se apegava a uma espécie de meta-identidade, que lhe dava alguma proteção psicológica. Digo isso porque os católicos gregos compõem uma minoria das minorias e sofrem, até hoje, profundos preconceitos e discriminações, até do ponto de vista segregacionista.

No Brasil, como imigrantes gregos, ocidentais, afrancesados, germanizados pela guerra, portadores de uma língua milenar e de grandes frustrações históricas, aportaram neste país com escopo de “ganharem a vida” com ‘trabalho honesto”. A rotina diária era de trabalhadores dedicados, obedientes e sobretudo, fiéis à Igreja, ao Catecismo da Igreja e aos seus dogmas mais enraizados.

Aprendi sobre a ditadura fora de casa. Aprendi a viver a política fora de casa. No ambiente familiar era impossível qualquer tentativa de trazer à baila as questões cruciais. Aos poucos, na universidade e na extensão de ações quando conheci o grupo que estava na organização da fundação do PT. Era um período de esperança, mesmo que debaixo da ditadura militar. Conheci a poesia e a o teatro e em conjunto com a ação política.

Meu pai sonhava com a possibilidade de eu me tornar um sacerdote católico. Depois de muita insistência, ingressei na Pastoral de Juventude, nos “grupos de jovens” como eram denominados à época. Vivia uma vida de várias faces. Na família, era o rapaz obediente, tímido e esforçado. No partido, era o insurrecional sem nenhuma leitura, no teatro, era a explosão do corpo e as experiências sensíveis e eróticas.

Na Igreja, vivi a experiência da então Teologia da Libertação. Parecia que a Igreja tinha as condições concretas para salvar o Brasil da ditadura. A juventude católica havia esquecido as lutas que jovens católicos travaram contra os militares, especialmente na década de 1960 e 1970. Por outro lado, essas experiências não eram narradas para nós que chegávamos, ao final da década de 1970 para as fileiras dóceis da nova juventude católica.

O início da década de 1980 trazia um novo ar, o ar da redemocratização e a anistia “geral e irrestrita”. Para a Teologia da Libertação, o ponto mais importante, o aspecto da inflexão para todos nós, era a “opção preferencial pelos pobres”. Um lema, uma senha de comprometimento, o codinome da luta social. A América Latina havia sido inundada pelas nonas interpretações dos Evangelhos. A interpretação que parecia apontar para o socialismo de caráter cristão. Não se estudava nem se discutia as bases do socialismo, mas as reflexões teóricas provocadas pelos teólogos da Libertação estavam envoltas por uma aura de crítica social radical em favor dos pobres. Muitos de nós tínhamos nos cardeais os verdadeiros representantes da sociedade e dos pobres e os porta-vozes da luta contra a ditadura. Não passava de um mundo enclausurado.

As CEBs – Comunidades Eclesiais de Base – eram a linha de frente de uma prática social, uma espécie de práxis, que ganhava os bairros, as periferias, penetrava nas celebrações eucarísticas, ganhavam terreno nas lutas sociais dos mais pobres. O termo em voga, a senha para a luta tratava de colocar os pobres no centro da Igreja. Secundaristas e universitários engrossavam as fileiras da Teologia da Libertação. Não havia, no entanto, nenhum estudo histórico acerca das vítimas da ditadura, nem mesmo quanto aos clérigos e freiras perseguidos pelos militares e que foram, inclusive, torturados nos calabouços da ditadura.

Os franciscanos e beneditinos eram os que mais estavam à frente das lutas promovidas pelas CEBs e pelos defensores da Teologia da Libertação. O alto clero, em sua maioria, era reticente ao movimento, alguns expoentes assumiam a linha de frente, especialmente os cardeais de origem franciscana e beneditina. A maioria dos bispos e cardeais mantinha-se em silêncio obsequioso, apoiavam as posições oficiais da CNBB contra o regime militar, até porque a Igreja havia sido alvo de perseguições.

Para nós, na base, ingênuos, com pouca formação e pouca prática de luta social, quase nenhuma teoria, movidos pela vontade, aqueles bispos e cardeais que despontavam publicamente, contra os militares, representavam toda a Igreja, representavam os pobres, o povo de Deus. Nas dioceses mais distantes, ou mesmo na maioria das paróquias urbanas, a vida católica seguia normalmente, sem arroubos contestatórios ou organizações das bases. Por outro lado, isso era um problema para o conjunto da unidade da Igreja, dada a ameaça iminente de rompimentos radicais, o que se conhece na Igreja por cisma. Os cismas eram um pesadelo, um dos fantasmas que sempre assombrara a Igreja, temerária de perder sua unidade, historicamente construída.

Certa feita, em um encontro na PUC de São Paulo, perguntei a Dom Mauro Morelli, bispo de Duque de Caixas, ne Estado do Rio de Janeiro, a razão pela qual a Igreja do Brasil não se separava de Roma, dadas as condições em que a Igreja nacional se encontrava. Muito calmamente, o bispo respondeu que vontade havia, mas que as massas, certamente, não seguiriam os cismáticos. Esse episódio ocorreu na tensão que a Igreja viveu quando Leonardo Boff havia sido “intimado” a dar explicações ao Cardeal Joseph Ratzinger acerca de seu livro Igreja, Carisma e Poder.

Neste livro, o então teólogo da Libertação, previa, com certa precisão o que ocorreria com ele, à semelhança de outros teólogos da mesma linha, que haviam sido chamados e silenciados por Roma e pela sua estrutura inquisitorial, enraizada após mais de mil anos de poder. A burocracia vaticana é uma das mais complexas e poderosas, que estende seus poderes por entre os corredores dos conventos, mosteiros, igrejas, paróquias, confessionários, nas bibliotecas das escolas católicas, na formação de seus sacerdotes.

Fui tomado de alguma expectativa positiva com a chegada de João Paulo II. A ideia era simples, para mim. Um cardeal que fora perseguido pelo regime polonês, por detrás da cortina de ferro, conhecia na pele o sofrimento da censura, da prisão, do cerceamento e da perseguição. Acreditava que ao enxergar o Brasil com sua verve humanista sob uma ditadura sanguinária, veria no Brasil a possibilidade de dar suporte às CEBs e à Teologia da Libertação. Eu fui um dos 100 mil que recepcionaram o Papa no Estádio do Morumbi, quando falou para os trabalhadores brasileiros. Os 12 dias de visita ao Brasil pareciam ter criado um clima de motivação para um salto na luta das comunidades e dos trabalhadores.

Tudo isso parecia um sonho e, na verdade, era apenas um sonho. Gradativamente, a nova organização vaticana tratou de restabelecer a ordem eclesial, tratou de reestruturar a organização administrativa da Igreja no Brasil.

Era o período da redemocratização. Os partidos ressurgiam, a anistia havia trazido de volta os remanescentes de 1964. Brizola, Arraes, dois grandes expoentes da luta contra a ditadura estavam de volta. Nas ruas, o burburinho, a CUT era criada e em seguida o PT. Parecia haver vida fora da Igreja. Eu mesmo havia descoberto a poesia, o teatro, a política, na formação e criação do PT. A CNBB chegou a calcular que na primeira metade da década de 1980, quando da abertura política, a Igreja perdera aproximadamente 5 milhões de agentes de pastoral, que haviam encontrado um novo veio de atuação social e política. Haviam deixado as bases da Igreja para construírem seus sindicados, seus movimentos sociais, as associações de bairro, os partidos. Não retornaram para a Igreja.

A Igreja nacional permitiu a sua reestruturação, de modo obediente, como manda o Direito Canônico, assumiu as determinações de Roma e silenciosamente, abafou os movimentos internos, as CEBs e, sobretudo, a Teologia da Libertação. O vazio deixado pelos agentes de pastoral foi preenchido pelos novos movimentos que cresceram à luz de uma nova orientação teológica, mais conservadora, voltada para a manutenção dos aspectos institucionais, litúrgicos, ritualistas etc. A burocracia católica voltava com a força medieval. A formação nos seminários mudava rapidamente. A Renovação Carismática crescia exatamente no vácuo deixado. Os livros amaldiçoados eram mantidos nos últimos lugares nas bibliotecas. Eu mesmo, quando lecionei em faculdades católicas, antes de ser expulso, presenciei alunos seminaristas a dizerem com orgulho que alguns autores eram proibidos e que também eram incentivados a queimá-los.

A Teologia da Libertação e a “opção preferencial pelos pobres” não passou de um hiato na história da Igreja. Como bem sinalizou Leonardo Boff, em seu Igreja, carisma e poder, a Igreja havia passado por muitas provas ao longo de sua história, mas a única com a qual não foi capaz de abrir mão foi a prova do poder. Diria mais, hoje. Jamais passou pela hierarquia da Igreja, como um todo, mudar as estruturas sociais, especialmente o modo de produção e reprodução material-social. Aquelas ideias de uma sociedade justa e fraterna, que tinha eco nos evangelhos e nas primeiras comunidades, não passou de um espasmo histórico. A ideia da Igreja Católica, desde que se tornou poder institucional, não fora mais o comprometimento com a transformação concreta das estruturas sociais. Em momentos e períodos de perseguição, a Igreja chegou a ser confundida com valores revolucionários e ou de resistência. Isso não passa de um voluntarismo estéril de crentes e não crentes.

O Estado mais teocrático de toda a face terrestre é o Vaticano e, curiosamente, tem seus prepostos na maior parte dos países. A estrutura e a organização da Igreja são fenomenais, ainda para os dias de cultura virtual. Esse Estado mantém o poder articulado, é sustentado pela sociedade, assim como no Brasil. o alto clero brasileiro conta com aproximadamente 300 bispos, 12 cardeais e algo em torno de 30 mil sacerdotes. É um poder considerável, articulado, estruturado, enraizado. Não está em seu horizonte uma luta contra o sistema social do Capital, em casos tópicos, a Igreja se compromete com os pobres, no escopo da assistência e de ações caritativas. De todas as religiões e suas derivações, o Vaticano é a expressão mais acabada de um Estado transnacional com ramificações profundas.

Longe de tudo, hoje, observo que minha experiência foi decisiva para a minha vida. Aprendi a compreender a compaixão, a fome, o abandono, a miséria, a perseguição, o ostracismo, o esquecimento. Vivi com mendigos, presos, prostitutas, vivi com os mais pobres, mesmo nunca ter sido miserável. Pessoas comprometidas com os mais pobres não deixaram de existir nas fileiras silenciosas da Igreja, estão ainda presentes em meu cotidiano, pena a Igreja cinicamente, ter deixado isso apenas no campo da caridade!

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Atanásio Mykonios

Professor adjunto da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - Campus JK. Líder do Grupo de Pesquisa Trabalho, Tecnologia e Educação - TTE. Fundador do CEFIL - Centro de Estudos em Filosofia. Fundador do Grupo de Pesquisa Crítica Social, ambos vinculados à UFVJM e CNPQ Coordenador por dois mandatos do Bacharelado em Humanidades - BHU (2010-2012/2016-2018). Docente do Mestrado Profissional Interdisciplinar em Humanidades, na linha de pesquisa Estudos Contemporâneos: Estado, trabalho, tecnologia e relações étnico-raciais. Estudos na área da Teoria Crítica, Crítica da Economia Política, Indústria Cultural e Cultura Virtual. Também é poeta e dramaturgo desde 1981. Possui graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2002), mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2006) e doutorado em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2016).

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