A Proliferação do Neo-Tradicionalismo Islamista Brasileiro

A Proliferação do Neo-Tradicionalismo Islamista Brasileiro
Da esquerda para a direita: Frithjof Schuon, Mark Sedgwick e Benjamin Teitelbaum.

“Antes de prosseguir, é importante questionar a apreensão islamofóbica de que muçulmanos são todos iguais: em verdade, variam cultural, linguística, geográfica, intelectual e politicamente, como todo e qualquer grupo.”

           A intensificação da globalização e da utilização de meios digitais para a comunicação impacta em diferentes âmbitos da vida dos sujeitos e de suas comunidades – incluindo as dimensões religiosa e espiritual. Em uma situação como essa, naturalmente surgiriam diferentes interpretações sobre a religiosidade e suas possibilidades, reflexos das intersecções entre religião e política, bem como de trocas e diálogos entre agentes sociais muito distantes geograficamente, potencializando redes de relações, trocas e pertencimento. Acompanhado esse processo de relativa aproximação, será no século XX que diferentes movimentos religiosos irão se consolidar, estando tais movimentos orientados em torno das leituras do fenômeno religioso que lhes interessam. Neste texto, objetivo realizar algumas considerações sobre o Neo-Tradicionalismo islamista brasileiro, alguns de seus agentes e como se destacam nos espaços virtuais, o que constitui um fenômeno novo, pouco analisado – com exceção do artigo de Sedgwick (2018), onde reflete sobre o sufismo[1] na América Latina, e de outros citados ao longo do texto.

            Antes de prosseguir, é importante questionar a apreensão islamofóbica de que muçulmanos são todos iguais: em verdade, variam cultural, linguística, geográfica, intelectual e politicamente, como todo e qualquer grupo. A procura por uma “essência” muçulmana esconde o fato de que as condições históricas, sociais e materiais, portanto políticas, condicionam o posicionamento de um grupo mais do que o mero pertencimento religioso. Partir do pressuposto de um plano islâmico de dominação mundial como alguns grupos nacionalistas (em suas variações que vão do nacional-populismo ao nazi-fascismo) de extrema-direita apontam é simplesmente irreal e perde de vista toda a complexidade possível do fenômeno “muçulmanos no século XXI”. O escritor Tariq Ramadan, em seu livro Le génie de l’islam (RAMADAN, 2016), nos traz pelo menos cinco correntes e tendências distintas e que disputam no espaço social:

1) os literalistas, que leem as fontes sem colocar em perspectiva histórica e oferecem pouco espaço para a razão; 2) os tradicionalistas, que seguem uma escola de jurisprudência e consideram essencial o que foi dito por estudiosos no passado; 3) os reformistas, que referenciam os textos e acreditam que os muçulmanos devem reformar seu entendimento por meio do uso da razão, da ijtihād[2] e da ciência; 4) os racionalistas, que afirmam que a razão deve prevalecer sobre a autoridade dos textos e desenvolvem um pensamento mais secularizado; 5) por fim, os místicos, que acrescentam à leitura pela inteligência aquela do coração e se interessam pelo significado oculto que pretende permitir a purificação e a libertação de si. (RAMADAN, 2016 – tradução nossa)

            Outro exemplo, pregresso à elaboração de Ramadan, encontra-se em Larwrence (2008), onde aborda a existência de uma multiplicidade de leituras do Alcorão. É preciso compreender que existem divisões, que elas interagem, disputam, relacionam-se. No Brasil, assim como nos Estados Unidos e outros lugares, algumas dessas tendências flertem com movimentos políticos das mais variadas matizes – inclusive aquelas vertentes proto-fascistas ou mesmo assumidamente nazifascistas –, conseguindo destaque ou mesmo hegemonia em algumas instâncias, o que na internet se retraduz em likes, compartilhamentos, participações em lives, podcasts e assim por diante. É possível afirmar a existência de presenças islâmicas em espaços não-islâmicos (quando alguém que expressa o Islam se expõe num espaço não-islâmico), mas também de espaços islâmicos cibernéticos (ambientes majoritariamente frequentados e/ou produzidos por agentes que expressam o Islam) (BUNT, 2018).

            A reflexão sobre essas leituras se fez necessária tanto por uma questão de minha prática islâmica quanto devido à minha pesquisa de doutorado sobre a islamofobia em redes sociais. Após alguns estudos, transformados em artigos e apresentações de trabalho, passei a compreender a islamofobia (resumidamente, uma pletora de intolerâncias e pressuposições racistas, xenofóbicas, sexistas, orientalistas, etc. sobre praticantes do Islam) enquanto prática de setores da extrema direita. Por outro lado, como veremos adiante, o Tradicionalismo contemporâneo é uma perspectiva aderente a essa extrema direta. Portanto, qual não foi minha surpresa ao me deparar com o Tradicionalismo e sua adesão por parte de muçulmanos? Para tanto, os espaços islâmicos cibernéticos se mostram ambientes profícuos para o crescimento desse movimento que surgiu com René Guénon e Frithjof Schuon e que hoje se propagam online (SEDGWICK, 2020a).

” (…) O Tradicionalismo visa identificar-se com esses orientais, apropriar-se de suas retóricas e tradições, para então desenvolver seus programas político-ideológicos.”

Dois livros essenciais sobre Tradicionalismo

 

            São poucas as obras que abordam o Tradicionalismo, ainda mais pelo Tradicionalismo confundir-se com a ideia de tradição. Para Talal Asad, “Uma tradição consiste essencialmente em discursos que buscam instruir os praticantes sobre a forma e o propósito corretos de uma dada prática que, justamente por estar estabelecida, tem uma história.” (ASAD, 1986, p.14 – tradução nossa). No caso islâmico, existe em âmbito discursivo uma pluralidade de possibilidades de ser muçulmano: qualquer leitura que não leve em conta a miríade de possibilidades que contempla a prática do Islam arrisca reduzi-lo seja enquanto objeto, seja enquanto categoria de análise, seja enquanto prática. Interessa-nos a metáfora de Muhammad Knight (2013), para quem a tradição é como um jardim que apresenta diferentes plantas com seus frutos: quem ingressa nesse jardim pode se servir de diferentes sabores e estará, ainda assim, servindo-se da tradição. O jardim e seus frutos não é propriedade de ninguém: qualquer pessoa pode se servir generosamente da tradição e experimentar seus sabores, flanar nesse espaço e encontrar sua combinação preferida ou uma combinação já apontada por outros que percorreram previamente o jardim da tradição. É exatamente o contrário que ocorre no âmbito do Tradicionalismo: existe um itinerário que deve ser seguido, imitado, transmitido por uma autoridade que delega autoridade, expediente comum em ordens iniciáticas e que, por essa via que se nutriu do esoterismo ocidental, propaga-se sob a expressão inovadora, ausente no Alcorão, de Islam Tradicional.

            As duas obras básicas para pensar o Tradicionalismo hoje são as de Sedgwick (2020a) e Teitelbaum (2020). São referências recentes: o primeiro, originalmente publicado em 2004, é uma história das mentalidades e das ideias, abordando correntes de pensamentos, ordens místicas, vidas e tramas que se desenvolvem em fases do Tradicionalismo, mas com uma semelhança: “(…) interpretações Tradicionalistas nunca são apresentadas como tal, mas colocadas simplesmente como a verdade.” (SEDGWICK, 2020a, p.305). Assim, Sedgwick aborda como diferentes grupos visaram tomar para si os sentidos e os significados do que é ser cristão, do que é ser muçulmano, do que é ser hindu – partindo, principalmente, de René Guénon, autor que circula entre grupos extremistas de direita ainda hoje (EVAN, 2020). O Tradicionalismo então apresenta a própria leitura da tradição, leitura essa com suas condicionantes histórico-sociais que confundem, como apontamos, Tradicionalismo com tradição.

            Já Teitelbaum empreendeu entrevistas com Steve Bannon, Alexander Dugin e Olavo de Carvalho, dentre outros, para compor seu livro que classifica como mistura entre etnografia e tentativa de jornalismo investigativo. Por mais que mereça críticas acerca do sucesso ou fracasso de sua tentativa, é inegável que o livro, publicado pela Editora Unicamp, forneça uma apreensão metodologicamente estruturada desse posicionamento ideológico. Nas conclusões, o autor indica “Quão bizarra era a noção de que os mundos do Tradicionalismo e do populismo de direita teriam se interinfluenciado.” (TEITELBAUM, 2020, p.232). Disso, concluímos que junto ao avanço do populismo contemporâneo assiste-se ao avanço do Tradicionalismo e a difusão de seus autores, aparentemente um fenômeno sendo retroalimentado pelo outro. Peço ao leitor que mantenha em mente a afirmação de Steve Bannon: “Se todos os muçulmanos do Oriente Médio fossem sufis, não teríamos problema algum.” (TEITELBAUM, 2020, p.175). A figura de sufi que Bannon imagina, Tradicionalista, estaria então consoante com suas perspectivas.

            Retornando a Sedgwick (2020a), é relevante frisar que o autor aponta nexos entre o Orientalismo e o Tradicionalismo: se por um lado o Orientalismo pode ser lido como saber e dispositivos de poder para impor-se aos identificados enquanto orientais, o Tradicionalismo visa identificar-se com esses orientais, apropriar-se de suas retóricas e tradições, para então desenvolver seus programas político-ideológicos – principalmente sob o disfarce de outra coisa que não um projeto político-ideológico. Isso se dá principalmente por meio da confusão simples da palavra “tradição”: quem se outorga detentor da tradição o faz com uma finalidade política, que é ocupar um determinado lugar no espaço social e no mercado de bens simbólicos, ser o elo de transmissão da verdade revelada. Daí indicarmos que se trata de um movimento islamista (ou seja, relativo ao islamismo) que, tal qual o Wahhabismo e o Salafismo, se coloca como representante dos muçulmanos e da religião islâmica. Bunt (2018) já reparara como esse posicionamento online muitas vezes questiona estruturas de saber e poder já estabelecidas e gera legitimidade para agentes emergentes que desafiam as instituições.

     Concluindo este tópico, dentre suas principais características, o Tradicionalismo visa recusar a Modernidade: nas palavras de um Tradicionalista, “Meu lado é o Islam, não a Modernidade”, como se fossem excludentes, como se não tivessem se influenciado, como se possuíssem uma essência que a pessoa que afirma apreende e julga. Apontando os defeitos e equívocos da Modernidade, identifica-a como um problema, um afastamento de uma tradição original, devendo a humanidade se reconduzir a essa tradição para que possa efetivamente obter a orientação. Coincidentemente, quem afirma isso geralmente se arroga a posse da tradição. Inclusive daí o apelo ao Conservadorismo e ao Neoconservadorismo, uma vez que dialogam com as perspectivas morais Tradicionalistas de papéis de gênero estabilizados pelo texto sagrado, ideologia antirrevolucionária, contrariedade ao feminismo, etc. De fundo esotérico, as semelhanças com grupos místicos não é à toa: exatamente por isso proliferarão as turuq (pl. de tariqa[3]) com concepções aderentes ao Tradicionalismo. Mathiesen (2013) indicará mesmo como constante o discurso do Islam Tradicional essa adesão ao sufismo, onde os membros da corrente de pensamento do Islam Tradicional visam tornar sinônimos os grupos que se identificam como sunitas, sufis e tradicionalistas. Tal indistinção simplesmente não é verdadeira: existirão sufis com uma perspectiva revolucionária (sendo a revolução, grosso modo, uma abominação para o Tradicionalismo, islâmico inclusive), sufis com uma perspectiva modernista, etc. Para aprofundamentos sobre o sufismo em seu caráter mais concreto e menos idealizado, conferir a aula de Paulo Hilu (PINTO, 2021), onde demonstra a pluralidade de sufismos e alguns de seus objetivos e dinâmicas bem pouco espirituais. Existirão mesmo os que querem se distanciar dessa perspectiva e optam pela expressão Islam Clássico para caracterizar suas proposições, como a Madrassa Virtual al-Wadud[4]. Por isso é importante o esforço em distinguir iniciativas (como a da madrassa[5] citada) tradicionais das Tradicionalistas – é principalmente a vinculação aos grupos de direita que caracterizará essa segunda categoria e que pode levar o analista a acreditar que todos os sufis são conservadores direitistas, o que simplesmente não é verdadeiro.

            Entretanto, se os Tradicionalistas recusam a Modernidade por um lado, por outro não abrem mão de seus frutos para espalharem suas mensagens.

 

“Sendo um dos ex-muçulmanos mais ímpares do Brasil, Olavo [de Carvalho] hoje tem uma discursividade islamofóbica e conspiracionista ao abordar o Islam e os muçulmanos. Porém, algo muito diferente ocorre quando observamos o Instituto Cultural Lux et Sapientia (ICLS), conduzido por seus filhos Tales de Carvalho e Luiz Gonzaga de Carvalho. (…): o Islam é apresentado como uma religião Tradicional.”

Neo-Tradicionalismo no Brasil

            A se considerar a narrativa de Heloisa de Carvalho, filha de Olavo de Carvalho, seu pai foi o líder de uma tariqa no Brasil, iniciando-se numa organização chamada Tradição e tendo depois aderido à seita de Frithjof Schuon (CARVALHO; BUGALHO, 2020). Sendo um dos ex-muçulmanos mais ímpares do Brasil, Olavo hoje tem uma discursividade islamofóbica e conspiracionista ao abordar o Islam e seus praticantes (CRUZ, 2020), sendo que para tanto coloca-se como um “informante interno”, alguém que esteve “do lado de lá”, de maneira semelhante ao que o faz quanto ao comunismo. Alguns o acusam de ser um agente de islamização; todavia, é hoje mais claramente um islamofóbico[6]. Porém, algo muito diferente ocorre quando observamos o Instituto Cultural Lux et Sapientia (ICLS), conduzido por seus filhos Tales de Carvalho e Luiz Gonzaga de Carvalho. Um ex-aluno do instituto, Leonardo Ferreira Boaski, elaborou um dossiê[7] no qual apresenta que existe uma proposta de “islamização” para os frequentadores do Instituto: o Islam é apresentado como uma religião tradicional, que disponibiliza para todas as pessoas uma via iniciática, e que o ICLS é uma espécie de “Cavalo de Tróia” do Islam para os incautos. Enquanto relato pessoal, o texto de Leonardo aponta para questões relevantes para pensar o Tradicionalismo no Brasil, uma vez que o ICLS é uma das condensações da presença cibernética neo-tradicionalista islamista e que nele leciona muçulmanos filiados a diferentes turuq.

            Considerando outros relatos de um grupo de discussões criado por ex-alunos do ICLS no Facebook (do qual participei através do link de acesso constante no primeiro dossiê) e diálogos com ex-membros de uma tariqa, destaco que a relação de Tales de Carvalho com um site e uma editora são fundamentais para o desenvolvimento do projeto Tradicionalista islamista no Brasil. São eles o site Iqara Islam, já identificado por Sedgwick (2018) como parte do movimento Neo-Tradicionalista na América Latina, e a Editora Bismillah, pertencente ao Editorial Estrela da Manhã[8]. O site Iqara Islam curiosamente cita como referência para definir para tradição ninguém menos do que René Guénon[9], autor que circula bem em meios da extrema direita e da direita radical contemporâneas (TEITELBAUM, 2020). Além disso, o site possui um canal no Youtube, para onde produzem principalmente legendas de vídeos. Destaco a produção de legendas para vídeos de Hamza Yusuf, um sheikh que teve aproximações com o governo Trump e que incomodara a muitos por isso (BIRT, 2017), mas que encontra guarida e ressonância nesse Tradicionalismo brasileiro e entre membros de turuq – mais ou menos conscientes do que se trata o Tradicionalismo. Outros expoentes do Tradicionalismo islamista internacional também estão presentes nessas legendagens, como o Sheikh Abdal Hakim Murad, sendo o canal uma fonte de divulgação de conteúdos tradicionalistas estrangeiros. Tais empenhos de estarem no espaço virtual não se estendem somente ao YouTube: apresentam um podcast, o História Islâmica, na plataforma Spotify, bem como uma página de Facebook homônima[10], além de um aplicativo disponível para smartphone, Nizam. Certamente a presença Tradicionalista islamista sunita no Brasil a muito deve a tal grupo que atua, como outras seitas e facções, de modo discreto. Dos membros “gestores” do projeto citado[11], dois pertencem a um ramo de uma das maiores turuq no mundo, sendo membros de uma facção minoritária dela e mesmo repudiados por outro restante; outros dois são, cada um, de uma tariqa diferente, o que inevitavelmente leva a pensar se há uma estratégia de entrismo em curso.

            Ainda considerando o Dossiê, em sua segunda parte indica-se a Editora Bismillah. Tal editora, como é possível apreender em uma consulta pública pelo CNPJ 07.960.592/0001-32 e na Parte 2 do dossiê de Leonardo Boaski sobre o ICLS, tem como seu sócio Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, outro dos filhos de Olavo de Carvalho. Ora, a comunidade islâmica brasileira é pequena perante outras comunidades religiosas, mas não tanto a ponto de que todos tenham que lidar com um Carvalho em sua vida: tal expediente não parece ser evitável para os que se aventuram pelo Islam Tradicional. Seja realizando a curadoria do material apresentado como Islam Tradicional, seja endossando o conteúdo abordado, a família Carvalho certamente constitui um capítulo obscuro de uma história, que está se desenrolando, de alguns dos grupos muçulmanos no Brasil. Significativo é que parentes do Olavo indiquem o conteúdo produzido pelos sites História Islâmica e Iqara Islam[12]. Para além da presença de sufis de diferentes turuq, seria caso de pensar-se em uma tariqa Carvalhiyyah, ou a “tariqa dos Carvalho”, uma supra-tariqa, que age subterraneamente? Não seria de se espantar. O fato é que o DNA de Olavo de Carvalho está, quase literalmente, envolvido no Islam Tradicional brasileiro.

            A guisa de apontamentos para além da facção Tradicionalista supracitada, destacamos também como expressões do Neo-Tradicionalismo brasileiro: 1) Ricardo Almeida, um articulista do MBL (Movimento Brasil Livre), premiado pelo Iqara Islam como um muçulmano de destaque para o ano de 2020[13], identificado como aluno (hoje possivelmente ex-aluno) de Olavo de Carvalho, sunita, sufi, e que assume receber orientação de um sheikh estrangeiro tradicionalista[14]; e 2) Carlos Alberto Sanches, de orientação xiita duodécima, com um canal na plataforma YouTube onde divulga, dentre outros conteúdos, discussões sobre Quarta Teoria Política, Julius Evola e outros temas caros aos admiradores de René Guénon e seus asseclas. Além de seus vídeos que evocam autores expoentes da extrema direita esotericista, Carlos Sanchez também tem textos publicados no blog Legio Victrix, espaço de divulgação das ideologias Integralismo e Quarta Teoria Política, dentre outras de teor semelhante. A influência duginista em círculos xiitas duodécimos brasileiros também poderia ser melhor explorada futuramente[15], uma vez que tangenciam relações internacionais, globalização e religião, tal qual a perspectiva sunita. Sunitas olavistas, xiitas duginistas: é essa a síntese do cenário “Neo-trad islamista BR”[16].

            O Neo-Tradicionalismo, para Sedgwick (2020b), relaciona-se a esses proponentes do retorno à tradição, mas que fazem uso de frutos da Modernidade para proliferarem suas perspectivas. A Modernidade, moralmente, é condenável: já tecnologicamente, é aceitável. Os casos acima são exemplos de como o Tradicionalismo islamista vem se adaptando ao contexto brasileiro e digital, se configurando como mais uma das leituras disponíveis aos muçulmanos no mercado de bens simbólicos religiosos, articulando redes sociais e redes de sociabilidade a conhecimentos religiosos, de maneira internacional, complexa e, condizente com o raciocínio de seita, operando com segredos e etapas de iniciação, segregação e posse de um conhecimento e da legitimidade em transmiti-lo. Se esse movimento do Islam Tradicional surge nos Estados Unidos na década de 1980 (MATHIESEN, 2013), para aquém de suas fundações míticas no tempo imemorial da tradição, e agora prolifera no Brasil, é digno se atentar às suas incursões, retóricas, discursos e discursividades para além da aceitação irrefletida de suas ideias como “autênticos representantes da tradição”.

            Diferente disso: são agentes sociais contemporâneos, interessados (politicamente) no espaço social, que disputam a intelectualidade e, no limite, a alma das pessoas, interessados inclusive em prestígio (vide a ampla inserção em espaços virtuais), ambição essa desprezada por alguns dos sufis com os quais dialogamos. É prudente suspeitar dos riscos quando da aceitação de uma relação mestre-discípulo com pessoas tão próximas aos expoentes da extrema-direita: a começar, é preciso saber de onde essas referências falam em suas redes de relações, projetos e ideologias, e a quais projetos políticos, explícita ou implicitamente, se vinculam. Só assim suas ideias podem ser analisadas mais no solo concreto da História, não nos vapores perenes que ilusoriamente dão a impressão de que a imagem que mostram sempre esteve lá.

            Dessas observações, proponho, por fim, que muçulmanos e não-muçulmanos, pesquisadores ou não, atentem-se para o fato de que: 1) Islam Tradicional não é sinônimo de Islam; 2) Sufismo Ocidental não é sinônimo de Sufismo; 3) Tradicionalismo não é sinônimo de Tradição. Somente combatendo essas confusões, que servem convenientemente aos que as propagam, que poderá surgir uma apreensão objetiva desses grupos e de suas ideologias. E filiem-se a eles ou o abandonem quem quiser, mas que tenham ciência de onde e com quem estão lidando.

 

Bibliografia

ASAD, Talal. The Idea of an Anthropology of Islam. Washington: Georgetown University, 1986.

BIRT, Yahya. Blowin’ in the Wind: Trumpism and Traditional Islam in America. 2017. Disponível em: https://medium.com/@yahyabirt/https-medium-com-yahyabirt-blowin-in-the-wind-trumpism-and-traditional-islam-in-america-40ba056486d8. Acesso em: 16 Agosto 2021.

BUNT, Gary R. Hashtag Islam: How Cyber-Islamic Environments Are Transforming Religious Authority. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2018.

CARVALHO, Heloisa de; BUGALHO, Henry. Meu Pai, o Guru do Presidente: a face ainda oculta de Olavo de Carvalho. Curitiba: Kotter Editorial, Editora 247, 2020.

CRUZ, Natalia. Islamofobia e elementos fascistas nodiscurso de Olavo de Carvalho e doMovimento Mídia Sem Máscaras (MSM). Revista de Ciências Sociais, Fortalez, v.51, n.2, p. 337-389, jul./out. 2020. Disponível em: http://www.periodicos.ufc.br/revcienso/article/view/39718/161750. Acesso em: 16 Agosto 2021.

EVANS, Jules. The Cosmic Right: on right-wing spirituality. 2020. Disponível em: https://www.philosophyforlife.org/blog/the-cosmic-right-on-right-wing-spirituality. Acesso em: 16 Agosto 2021.

KNIGHT, Michael Muhammad. Tripping with Allah: Islam, Drugs, and Writing. Berkeley: Soft Skull Press, 2013.

LAWRENCE, Bruce. O Corão: uma biografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

MATHIESEN, Kasper. Anglo-American ‘Traditional Islam’ and Its Discourse of Orthodoxy. Journal Of Arabic And Islamic Studies, [S.L.], v. 13, p. 191-219, 1 jan. 2013. University of Oslo Library. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5617/jais.4633. Acesso em: 16 Agosto 2021.

PINTO, P. G. H. R. [Live] Sufismo, com Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FH2n9rmtRCM. Acesso em: 16 Agosto 2021.

RAMADAN, Tariq. Le génie de l’islam: initiation à ses fondements, sa spiritualité et son histoire. Paris: Presses du Châtelet, 2016. e-book.

SEDGWICK, Mark. Sufism in Latin America: a preliminary survey. Melancolia: Revista de Historia del Centro de Estudios sobre el Esoterismo Occidental de la UNASUR, Online, v. 3, n. 1, p. 4-34, jan. 2018. Disponível em: http://revistamelancolia.com/index.php/melancolia/article/view/23/29. Acesso em: 16 Agosto 2021.

SEDGWICK, Mark. Contra o mundo moderno: o Tradicionalismo e a história intelectual secreta do século XX. Belo Horizonte: Âyiné, 2020a.

SEDGWICK, Mark. The Modernity of Neo-Traditionalist Islam. In.: JUNG, Dietrich; SINCLAIR, Kirstine. Muslim subjectivities in Global Modernity: islamic traditions and the construction of modern muslim identities. Leiden, Boston: Brill, 2020b. p. 121-146

TEITELBAUM, Benjamin. Guerra pela eternidade: o retorno do tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Campinas: Editora Unicamp, 2020.

[1] Sufis são aqueles praticantes do sufismo, identificado ora como prática, ora como ciência, ora como divisão. Foge ao escopo deste texto definir o que é o sufismo.

[2] “Termo legal islâmico, significa ‘raciocínio independente’ em oposição a taqlid (imitação). Uma das quatro fontes da lei sunita. Utilizado onde o Alcorão e a Sunnah (as duas principais fontes) silenciam.” Extraído de: https://www.oxfordreference.com/view/10.1093/oi/authority.20110803095957354. Tradução nossa.

[3] Para os fins deste texto, tariqa pode ser entendida como uma “ordem” – certamente essa definição não esgota os significados do termo.

[4] Disponível em: https://www.instagram.com/madrassaalwadud. Também possuem um canal no YouTube, disponível em: https://www.youtube.com/channel/UC2UMYVcC8CvbqcQl2omz8Ig. Relatamos aqui nosso apreço pelo projeto.

[5] Em síntese, um espaço de ensino.

[6] Em mensagem particular no site Academia.edu, Olavo de Carvalho ou alguém se passando por ele (talvez um dos filhos?) protestou em ser acusado de islamofóbico em um texto de minha autoria. A dubiedade, se é um agente de islamização ou um islamofóbico, parece comum nesse contexto.

[7] A primeira parte desse dossiê está disponível em alguns lugares, dentre eles: https://pdfcoffee.com/dossie-do-icls-parte-1-pdf-free.html. As três partes do dossiê estão disponíveis em diferentes sites.

[8] A expressão “Estrela da Manhã” se refere, em algumas exegeses, ao planeta Vênus, a Jesus ou ao Diabo. No caso citado, nos parece que a dubiedade é uma opção.

[9] Disponível em: https://iqaraislam.com/o-que-e-o-isla-tradicional-tradicao-islamica-nao-e-igual-ao-fundamentalismo.

[10] Conversando com um historiador e doutorando sobre história islâmica, incomodou-o o claro revisionismo e otomanismo dos textos, tidos como tendenciosos – todavia, dada a escassez de bibliografias em língua portuguesa, o público tem admirado o trabalho realizando, tendo a página citada mais de 85 mil curtidas na plataforma Facebook.

[11] Certamente ao menos até o primeiro trimestre de 2020, de acordo com os documentos que dispomos.

[12] Por exemplo, essa publicação de uma sobrinha de Olavo, disponível em: https://www.facebook.com/juliadecarvalhodiniz/posts/1532276656905546.

[13] Lista de premiados disponível em: https://iqaraislam.com/muslim-11-brasil-2020.

[14] O que ocorreu no podcast Contra o Mvndo Moderno [sic], em episódio disponível em: https://open.spotify.com/episode/46nIcZRqXv2d3Iwi5QHVNY.

[15] Afirma-se isso por dois indícios: 1) a palestra de um articulista da organização duginista Nova Resistência no Centro Cultural Imam Hussein, no Rio de Janeiro, em 2019: Raphael Machado – Revolução Iraniana como expressão da Quarta Teoria Políticahttps://www.youtube.com/watch?v=Hjbw_PDdSZ4; e 2) a participação de Carlos Sanches em atividades promovidas pelo Centro Cultural Imam Hussein (Rio de Janeiro), como o 1º Seminário Nacional das Comunidades Islâmicas – https://www.centroimamhussein.com/post/1-seminario-nacional-das-comunidades-islamicas e textos de sua autoria no site oficial da entidade islâmica citada.

[16] O que não deve nublar as relações entre tais vertentes: citando um caso concreto, me recordo de um sunita que é diretor de um Instituto Islâmico brasileiro anunciando a venda de livros de Dugin. Que olavistas e duginistas se consultem não é novidade

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Felipe Souza

Doutorando em Ciências Sociais na FCL de Araraquara da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (desde 2020), mestre em Educação Tecnológica pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, em Belo Horizonte (2009-2011), graduado em Pedagogia pela FCL de Araraquara da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (2003-2007). Divulgador do Islam pelo Instituto Latino Americano de Estudos Islâmicos de Maringá - PR (2016-2018). Pesquisador vinculado ao GRACIAS (Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes) da USP de Ribeirão Preto - SP e do NAIP (Núcleo de Antropologia da Imagem e Performance) da FCL de Araraquara da UNESP. Membro da Society for Francophone Postcolonial Studies (2021). Pesquisa islamofobia e preconceito contra muçulmanos em ambientes virtuais.

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