Docetismo e Imaginal – uma interpretação a partir de Henry Corbin

Docetismo e Imaginal – uma interpretação a partir de Henry Corbin

“(…) podemos considerar que o docetismo consistia na concepção de que Jesus não teve um corpo carnal e humano comum, pois ele disporia de uma espécie de corpo fantasmático, espiritual ou angélico (…)”

Dedico este texto singelo à honrosa memória do professor Ricardo Mário Gonçalves, com o qual conversei muitas vezes pelas redes sociais. Escrevi também em sua homenagem estas linhas: “Ele era nobre, gentil, simples, corajoso. Com a graça de um gato, muitas conversas, muitos assuntos, do gnosticismo ao budismo, passando pela filosofia perene. Era um verdadeiro samurai: na mão direita empunhava a espada da sabedoria, na mão esquerda o escudo da compaixão. E, ao mesmo tempo, era um espírito livre e rebelde. Não éramos íntimos, não obstante lágrimas caíram sem parar nessa manhã, brancas e ternas como os lírios da Terra Pura, onde o Buda Amida abre agora seus olhos de luz e seu sorriso compassivo para receber mais um filho que retornou à casa”.

 


 

Com base na leitura que Christian Jambet faz da obra de seu mestre Henry Corbin (JAMBET, 2006, 294-297), podemos considerar que o docetismo consistia na concepção de que Jesus não teve um corpo carnal e humano comum, pois ele disporia de uma espécie de corpo fantasmático, espiritual ou angélico e, portanto, sua Paixão na cruz não foi algo “real” nem “doloroso”; concepção essa sustentada por alguns gnósticos antigos e pelos maniqueus. Justamente nesse aspecto a heresiologia católica enxergou no docetismo uma negação cabal do sofrimento redentor de Cristo, assim como uma negação de seu lado humano-corpóreo-mortal, típica de uma visão dualista e acosmista, tal como é atribuída frequentemente aos gnósticos, em contraste com a centralidade histórico-teológica da Paixão crística e da co-humanidade de Jesus Cristo tal como foi pressuposta no catolicismo.

Contudo, existem muitas sutilezas nessa discussão, e Henry Corbin, um inegável admirador do gnosticismo, ajuda-nos a lançar novas luzes sobre ela, a partir do conceito de imaginal. O mundo imaginal é a Alma do Mundo platônica que, sob a teosofia islâmica de Sohravardî, Ibn ‘Arabî e Molla Sadra, torna-se o mundo da Imaginação ativa ou criadora; mundo situado entre o físico-sensível e o mundo inteligível, das puras formas ou idéias. O mundo imaginal é o mundo das formas criadoras e criativas, da imaginação plástica, no qual o espírito torna-se corpo, e o corpo se espiritualiza, sendo ao mesmo tempo objetivo e subjetivo. É neste mundo que as formas se singularizam, infinitamente, e é também o mundo dos fatos e acontecimentos visionários e espirituais, dos anjos, das cidades de esmeralda, teofanias e angelofanias. O imaginal é tanto transhistórico quanto uma abertura de sentido para a história comum; ele tem uma temporalidade e espacialidade próprias, múltiplas.

 

“(…) não é demasiado lembrar aqui que os gnósticos do Islã também são docetas, apesar de não serem dualistas (…)”

Ora, à luz do imaginal tal como é caracterizado por Henry Corbin, o docetismo gnóstico adquire uma significação diferente, e não é demasiado lembrar aqui que os gnósticos do Islã também são docetas, apesar de não serem dualistas, pois o Corão igualmente não aceita a crucificação literal de Jesus. A visão docética não é simplesmente uma negação da realidade da Paixão, já que esta é um acontecimento imaginal e, portanto, real. Trata-se de uma realidade transistórica, a qual não ocorre uma única vez e pronto: a crucificação se repete como acontecimento visionário e, paradoxo, sempre presente e novo. 

Na concepção historicista cristã, cuja apoteose secularizada é o hegelianismo, a Paixão de Cristo é considerada um evento que ocorreu uma única vez, sem repetição, onde o Infinito se finitizou no âmbito da humanidade e da mortalidade, concentrando a dor consigo, enquanto seu sentido foi “assimilado” pela “ruína” da marcha da história universal; em contraste, na versão gnóstica, docético-imaginal, a Paixão ocorreu e ocorre ainda,  em uma conotação de dor que se identifica não só com um indivíduo ou com um fato histórico passado, mas com toda a criação (eis a Cruz de Luz dos maniqueus), a qual constantemente pode ser “revivida”, e a cada vez de uma forma nova.

É importante salientar, para concluir, que o mundo imaginal de Corbin não deve ser confundido com “mito”, nem com algum tipo de “símbolo”, tampouco com o “inconsciente coletivo”, pois é (a seu modo) real e objetivo; mundo este que constantemente não permite que o sentido do histórico e do temporal se perca, à luz do transhistórico.

 

 

Bibliografia

JAMBET, Christian. A lógica dos orientais: Henry Corbin e a ciência das formas. RJ: Globo, 2006.

O’GRADY, Joan. Heresia: o jogo de poder das seitas cristãs nos primeiros séculos. SP: Mercuryo, 1994.

IRINEU DE LIÃO. Contra as heresias. SP: Paulus, 1995

HOELLER, Stephan. A liberdade espiritual: a cosmovisão gnóstica, In: Esoterismo e magia no Mundo ocidental, Jay Kinney (org.). SP: Pensamento, 2005, pp. 46- 55. 

 
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Daniel Plácido

Professor de filosofia. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP; Especialista em História pela PUC; Cursa mestrado em Filosofia pela UFU.

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