Entrevista com o Professor Ricardo Mário Gonçalves

Entrevista com o Professor Ricardo Mário Gonçalves

“A incompatibilidade entre a experiência espiritual e a pesquisa científica é um problema particularmente agudo na esfera dos monoteísmos originários do Oriente Médio, principalmente no caso do cristianismo, que privilegia a ortodoxia. Isso é menos agudo no judaísmo e no islam, que dão primazia à ortopraxia: o que importa é a estrita observância da prática religiosa, o devoto tem a liberdade de crer no que quiser. No caso do Budismo Mahayana, (…) é que não vejo mesmo incompatibilidade alguma.”

 

Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves, monge budista, acadêmico e historiador, foi um intelectual único no cenário universitário brasileiro, até há algum tempo marcado pelo desprezo pelas dimensões religiosas da existência humana.  Professor na Universidade de São Paulo, sua adesão ao budismo se deu pelo contato e convívio com as mais respeitáveis fontes e pessoas e soube, sobretudo, conciliar suas inquietações pessoais com o exercício da coerência e da ética na pesquisa científica. Esta entrevista traz, para os leitores da Mística Revolucionária, a experiência ímpar deste pesquisador da cultura japonesa de primeira hora. (Entrevista realizada por Leila Marrach Basto de Albuquerque, publicada originalmente pela Revista do Núcleo de Estudos Religião e Sociedade.)

  

 

NURES – Até os anos 60, os japoneses no Brasil mantinham seus contatos, privilegiadamente, no âmbito de sua comunidade étnica. Também entre os brasileiros, eram poucos os que conheciam ou se interessavam pela cultura japonesa. A sua aproximação dos japoneses é um desses casos raros. Que indagações intelectuais o levaram a esta aproximação?

Prof. Ricardo –Essa aproximação não ocorreu apenas por motivos intelectuais. Já na infância, leituras como “As Viagens de Marco Polo” e romances de aventuras e viagens de autores como Julio Verne e Emilio Salgari despertaram em mim intensa curiosidade em relação ao Oriente, seus costumes e suas religiões. Ao ingressar na Escola Secundária, em meados dos Anos Cinquenta, vi-me numa classe em que quase a metade dos alunos era constituída por filhos de japoneses. Fiquei fascinado: até então só conhecera os orientais nos livros, agora me era dado conviver com eles no dia a dia! Aproximei-me de meus colegas, disposto a TUDO para aprender sua língua e costumes. Fui muito bem recebido e em breve comecei a ser aceito nos lares japoneses. Logo percebi que havia sido praticamente “adotado” pelos japoneses.   Comecei a estudar a língua através de “mangá” (histórias em quadrinhos) e a cultura através das artes (música, canto, dança, teatro e cinema). Minha aproximação da espiritualidade budista japonesa se deve a um duplo interesse: a) conhecer o alicerce espiritual da cultura japonesa; b) minha busca pessoal de espiritualidade. Ao terminar o Secundário, ingressei no Curso de História na USP por ver nele a possibilidade de desenvolver um estudo científico do budismo, paralelo à minha busca pessoal que me levava a visitar os templos budistas japoneses de S. Paulo e a me entrosar com os missionários.    Ao ingressar no curso de História, o Prof. Eurípedes Simões de Paula, que estava organizando os Cursos de Estudos Orientais, me colocou diante da perspectiva de uma carreira acadêmica na área de Orientalismo, o que me estimulou a me dedicar à História das Religiões, especializando-me em budismo Japonês.  Investigação acadêmica e busca espiritual pessoal começaram a andar juntas, como as duas rodas de uma carroça.                                            

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NURES – As suas relações com o universo cultural japonês não se restringem aos interesses acadêmicos, já que você é um dos primeiros brasileiros que se tornaram monges budistas, o que, aliás, ocorreu antes do boom orientalizante do ocidente e da expansão do mercado de bens religiosos japoneses. Como você compatibiliza a experiência espiritual budista com a perspectiva científica da pesquisa acadêmica?

Prof. Ricardo – A incompatibilidade entre a experiência espiritual e a pesquisa científica é um problema particularmente agudo na esfera dos monoteísmos originários do Oriente Médio, principalmente no caso do cristianismo, que privilegia a ortodoxia. Isso é menos agudo no judaísmo e no islam, que dão primazia à ortopraxia: o que importa é a estrita observância da prática religiosa, o devoto tem a liberdade de crer no que quiser. No caso do Budismo Mahayana, cujas raízes doutrinárias estão no Princípio da Originação Dependente proclamado pelo Buda Histórico Sakyamuni e por seu aprofundamento como Dialética da Vacuidade, feito por Nagarjuna, é que não vejo mesmo incompatibilidade alguma. Esclareço que na minha perspectiva a experiência espiritual é algo específico, sendo irredutível ao social (sociologismo) ou ao psicológico (psicologismo), sem negar, evidentemente, a importância do psicossocial. Lamentavelmente o conflito entre Religião e Ciência próprio da História do Ocidente está longe de ter sido superado, hoje ele recrudesce graças aos fundamentalismos radicais que provocam reações igualmente radicais de parte de alguns cientistas. Devo dizer ainda que, neste último caso, eu me sinto muito mais próximo a cientistas e militantes ateístas como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris do que de muitos religiosos. Mostram-me eles que, não obstante a nova onda de conservadorismos fanáticos e obscurantistas ligados à religião, ainda existe vida inteligente no planeta…

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NURES – O movimento contracultural do pós-guerra despertou o interesse, no ocidente, pelas tradições e religiões orientais. Qual foi a importância deste movimento na sua trajetória intelectual e religiosa?

Prof. Ricardo – Nunca me considerei um conformista ou acomodado, sempre encarei a realidade com olhos críticos, mas nunca consegui me identificar com movimentos marxistas. Minha sensibilidade para com a espiritualidade sempre me manteve distante de movimentos e ideologias dogmaticamente materialistas. A contracultura me fascinou justamente pela sua abertura para o espiritual, particularmente para a espiritualidade oriental, não obstante certos excessos (drogas, etc.). Cheguei mesmo, em certo momento (fim dos anos sessenta) a colaborar com um dos papas da contracultura no Brasil, o Luis Carlos Maciel que escrevia no “Pasquim” e na versão Brasileira da “Rolling Stones”, para a qual cheguei a colaborar com alguns artigos. Vi na contracultura um dos portais pelos quais a espiritualidade oriental poderia penetrar no Brasil e exercer alguma influência por aqui. Minha aproximação com a contracultura foi algo que eu vivi praticamente sozinho, pois meus companheiros missionários budistas japoneses nem sequer sabiam o que é contracultura… eles achavam muito esquisito que “hippies” pudessem se interessar por Budismo, nunca chegaram a entender direito porque eu me aproximava desses movimentos. 

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NURES – A modernidade expulsou a religião como fonte de orientação de vida, para instalar a razão instrumental como única via legítima para o destino dos homens. A recusa a este imperativo tem muitas faces e vem sendo chamada de condição pós-moderna. Como você vê o papel da religião na pós-modernidade?

Prof. Ricardo – Vejo a pós-modernidade como uma sequência, mais aprofundada e amadurecida, de algumas tendências já presentes na contracultura, como a de retomar certas tendências que a modernidade desprezara, entre as quais a religião ou a religiosidade. A modernidade e sua filosofia típica – o Iluminismo – viram na Razão a única via legítima para o conhecimento e a prática, deixando de lado faculdades como a sensibilidade e a intuição, intimamente ligadas à espiritualidade e à religiosidade. A pós-modernidade tende a reconsiderar essas faculdades.

Quanto ao papel da religião na pós-modernidade, não deixa de ser ambíguo. Faltam ao homem moderno, depois de tanto racionalismo e indiferença para com o espiritual, critérios seguros para distinguir a verdadeira espiritualidade de suas contrafações. Muitos se tornam vulneráveis aos fundamentalismos de vários matizes, que longe de serem formas tradicionais de espiritualidade, não passam de respostas radicais de cunho moderno aos desafios da modernidade. Se, de um lado, temos na pós-modernidade esboços de um diálogo construtivo entre as ciências de ponta e as tradições espirituais, temos, de outro lado, grupos religiosos tacanhamente conservadores assumindo posturas incompatíveis com o progresso científico e social.

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NURES – As religiões japonesas têm sentidos distintos para os nipônicos e para os brasileiros. Como você caracteriza o tipo de adesão de uns e de outros, e como você classifica as religiões japonesas no Brasil?

Prof. Ricardo – Para os japoneses radicados no Brasil, permanecer fiel à religião japonesa é tentar manter em sua pátria de adoção algo de sua cultura ancestral. Para o brasileiro, a adesão a uma religião japonesa representa a busca de uma forma alternativa de espiritualidade.

Há dois tipos de religiões japonesas no Brasil: de um lado temos aquelas que permanecem discretamente limitadas ao universo nipo-brasileiro, sem nenhuma intenção de se expandirem fora do mesmo; de outro lado, temos aquelas que exercem uma ação missionária, às vezes bastante agressiva, junto à sociedade brasileira.

Devo dizer que não considero o chamado “budismo japonês” como religião japonesa. O budismo é uma religião universal que se adaptou a várias culturas, dentre as quais a japonesa. Historicamente coube aos japoneses o papel de introdutores do budismo no Brasil: o primeiro monge budista a pisar em solo brasileiro foi o Venerável Ibaragi Nissui que para cá veio na condição de trabalhador agrícola a bordo do “Kasato Maru”, em 1908. O budismo foi durante muito tempo visto pelos brasileiros como “religião japonesa”, mas hoje em dia outras formas de budismo como o lamaísmo tibetano gozam de muito maior visibilidade junto ao povo brasileiro do que as escolas de origem japonesa.

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NURES – Boa parte das religiões japonesas integra, hoje, os chamados novos movimentos religiosos, que compreendem inúmeras tradições, orientais e ocidentais, nativas ou não, geralmente desvinculadas das instituições de origem, com frequentadores com comportamento nômade que promovem sincretismos os mais criativos. Como a instituição religiosa à qual você faz parte, Higashi Honganji, lida com esse aspecto da religiosidade contemporânea?

Prof. Ricardo – Eu pessoalmente vejo os sincretismos com bastante reserva e desconfiança, não só por pertencer a uma Ordem – a Verdadeira Escola da Terra Pura (Jôdo Shinhsû) – fundamentalmente refratária aos sincretismos, como também por ter recebido uma forte influência de pensadores tradicionalistas ocidentais como René Guénon, francamente hostis aos sincretismos. Shinran (1173-1262) encarava o sincretismo búdico-xintoísta de seu tempo como uma das marcas do Mappô, ou seja, da decadência do Budismo.

Um caso extremamente controvertido hoje em dia é o do movimento denominado OM Shinrikyô (OM –A Verdade Suprema) tornado tristemente célebre por causa do ataque terrorista com Gás Sarin contra o metrô de Tokyo em 1995. Esse movimento, que ainda hoje sobrevive com o nome de Aleph, prega uma estranha mistura de budismo esotérico com tantrismo hindu e doutrinas apocalípticas judaico-cristãs. Seu líder, Shoko Asahara, foi discípulo de um personagem que conheci no Japão em 1972, Yasuo Kiriyama, líder de um movimento de nome Agonshû que mistura elementos do Budismo Primitivo com o Esoterismo budista Shingon e com doutrinas teosóficas extraídas das obras do teosofista inglês Charles Leadbeater. Kiriyama gabava-se de ter o poder de acender com a força do pensamento o fogo do “Goma” (ritual védico do fogo incorporado ao Budismo Esotérico Shingon). Quando li isso, logo percebi que estava diante de uma tremenda intrujice… Quanto ao movimento de Asahara, o que surpreende é que vários de seus principais seguidores não eram camponeses simplórios, mas alunos brilhantes de cursos de pós-graduação em Ciências e Tecnologia de ponta… Asahara e vários de seus assessores foram condenados à morte. Segundo testemunhas, Asahara, que permaneceu silencioso durante os longos anos de seu processo criminal, mostra-se incapaz de articular duas palavras coerentes… Entretanto, o tribunal condenou-o sem ouvir a defesa que por várias vezes solicitou um exame psiquiátrico do réu. Na sociedade japonesa de hoje, vozes insistentes clamam por sua pronta execução. Parece que a sociedade japonesa quer rapidamente varrer para debaixo do tapete esse caso sinistro, sem se demorar em esclarecer mais profundamente suas causas. É como se o OM Shinrikyo fosse um aspecto embaraçoso da Sombra da sociedade japonesa que todos preferem fazer de conta que não existe…

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NURES – As suas viagens ao Japão certamente lhe propiciaram contatos com intelectuais e estudiosos japoneses. Como eles vêm e interpretam o interesse por religiões japonesas entre os brasileiros?

Prof. Ricardo – Muitos intelectuais japoneses que conheci consideram o Brasil um país 100% católico e mostram-se agradavelmente surpreendidos quando informados do interesse que muitos brasileiros nutrem pela espiritualidade japonesa.                                                                   

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NURES – O cenário político e religioso internacional, presentemente, está muito diferente do dos anos 60, quando se iniciaram os esforços voltados para o ecumenismo religioso. Como você avalia as perspectivas culturais e políticas para o diálogo inter-religioso, hoje.

Prof. Ricardo – O diálogo inter-religioso é importante, mas hoje precisamos muito mais do que isso. Precisamos de um diálogo entre as pessoas de bom senso, religiosas ou não. Religião é uma faca de dois gumes, tanto serve para fazer a paz como para fazer a guerra. Insisto, sinto-me muito mais próximo de cientistas e humanistas ateus do que de certos religiosos…

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NURES – Além da sua atuação profissional na USP, voltada para a História e os estudos orientais, e do seu treinamento como monge budista, de quais outros campos do saber você se aproximou? Como se deu sua experiência no grupo da Nise da Silveira?

Prof. Ricardo – Interessei-me pela Psicologia Analítica de Jung nos anos sessenta, onde tive o privilégio de participar do grupo de estudos da Dra. Nise da Silveira, onde tive uma valiosa experiência de pesquisa transdisciplinar, envolvendo psiquiatras, psicólogos, antropólogos, religiosos de várias correntes, artistas plásticos, etc. A partir daí, envolvi-me também com o estudo das obras do tradicionalista francês René Guénon, que para mim se constituiu numa ponte a unir Budismo e Maçonaria. Dediquei-me também ao estudo da Antropologia do Imaginário de Gilbert Durand, que deve muito a autores como Jung e Eliade, bem como a tradicionalistas como Guénon. Li também alguma coisa da obra de Lévi-Strauss, em cujo livro “Tristes Trópicos” descobri com surpresa uma avaliação bastante positiva do budismo.

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NURES – O campo dos estudos orientais, no Brasil, tem você como um personagem ímpar, cuja trajetória intelectual acompanha o próprio campo, no papel de incentivador de pesquisadores brasileiros sobre o oriente. Destaque os aspectos mais importantes da sua trajetória como orientador de dissertações e teses ligadas aos estudos orientais.

Prof. Ricardo – Tive a felicidade de ser escolhido pelo saudoso historiador Eurípedes Simões de Paula, pioneiro da implantação do Orientalismo na USP, para auxiliá-lo em seu projeto de criação dos cursos de Estudos Orientais na USP. Fui um dos primeiros a trabalhar em pós-graduação nessa área, entre 1974 e 1995. Eram tempos heroicos que me obrigavam a ser um orientador polivalente, ao invés de me concentrar exclusivamente na minha área de pesquisa: Estudos Japoneses. Assim, passaram por minhas mãos como orientandos vários estudiosos que se tornaram especialistas em Sânscrito, em Estudos Chineses, Armênio, Árabe, Hebraico, etc.

 

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Leila Marrach B. Albuquerque

Licenciada em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Rio Claro (atual UNESP), Mestre e Doutora em Ciências Sociais pela PUC - SP, professora Assistente 2 aposentada da UNESP - Rio Claro e pesquisadora voluntária no Centro de Documentação e Memória (CEDEM) da UNESP - São Paulo. Tem experiência no campo da Sociologia, com ênfase em Sociologia da Ciência e Sociologia da Religião investigando principalmente os seguintes temas: ciência moderna, epistemologias, contracultura, novos movimentos religiosos e corporeidades. É pesquisadora da Comissão da Verdade da UNESP (CEDEM).

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