O conceito dos “encontros significativos” na tradição Shin budista- uma breve homenagem ao Professor Ricardo Mário Gonçalves

O conceito dos “encontros significativos” na tradição Shin budista- uma breve homenagem ao Professor Ricardo Mário Gonçalves

Na tradição Shin do Budismo japonês fundada pelo Mestre Shinran (1173-1262) o conceito dos “encontros significativos” possui uma dimensão central e essencial. No quadro da compreensão do Budismo proporcionado por este conceito, a transmissão do ensinamento do Buddha se dá através de uma série de encontros que proporcionam uma mudança radical em nossa visão de nós mesmos e do mundo. No caso do próprio Shinran o encontro com seu Mestre Honen (1133-1262) abriu as portas para sua compreensão do Budismo centrada nos sete Mestres da Índia, da China e do Japão, proporcionando uma mudança revolucionária em sua existência. Meu próprio encontro com a tradição budista em geral e, em particular, com a tradição Shin budista também ocorreu através deste mesmo conceito. Ao completar sessenta e seis anos de idade, percebo cada vez mais que o centro de meu percurso de vida se deu em função de alguns encontros de natureza decisiva que proporcionaram mudanças radicais e irreversíveis em meu processo de vida e de pensamento.

Gostaria de me referir aqui com algum detalhe a um dos mais importantes destes encontros, ou seja, ao encontro com o recentemente falecido Professor Ricardo Mário Gonçalves, Professor do Departamento de história da USP e missionário do templo budista Higashi Honganji da tradição Shin. Certamente não é fácil para mim falar de um encontro que teve a duração de quarenta e um anos e que foi marcado por uma série de diálogos profundos e intensos compartilhamentos. Assim sendo, pretendo me limitar a dois momentos de nossa interação: o período que se estende de 1980 a 1984 em que atuamos juntos no Instituto Budista de Estudos Missionários do acima referido Templo Higashi Honganji, quando também fui seu aluno na pós-graduação de história da USP; e ao nosso diálogo desenvolvido nos dois anos finais de sua existência, anos esses que foram marcados pelo clima da mesma pandemia que iria ceifar a sua preciosa existência.

O primeiro período entre 1980 e 1984 se deu no contexto das profundas mudanças históricas que marcaram a sociedade brasileira nos anos 80 do século XX. Reflito com muita frequência a respeito deste período e de suas implicações, e existe certamente muito a ser dito a seu respeito que ainda não foi sequer esboçado, mas pretendo me limitar aqui aos aspectos de nossa interação no contexto da espiritualidade e do pensamento budista. O ponto mais importante aqui foram as sugestões que ele me deu a respeito da importância decisiva da escola Yogacãra do Budismo Mahayana e de sua relação com a tradição Shin budista. Esta perspectiva apontava diretamente para o conhecimento da profundidade de nossa ignorância conforme presente em ambas estas tradições e apontava já nesse período para uma dura crítica em relação aos conceitos da “iluminação original” e do tathagathagarbha. Essas indicações iriam determinar profundamente todo o meu percurso durante os dezoito anos em que vivi e atuei no Japão e me conduziram à esfera de influência de pensadores como Rijin Yasuda (1980-1982) e dos representantes do “budismo crítico” conforme desenvolvido na Universidade de Komazawa, Tóquio, Japão. Não se constitui em um exagero dizer que estas indicações apontavam para todo o processo de vida e de reflexão que marcaram estes dezoito anos de minha presença no Japão. Ou seja, o Professor Ricardo não me proporcionou as respostas, mas contribuiu de forma decisiva para que pudesse formular as questões verdadeiramente relevantes. No que diz respeito ao segundo momento de nossa interação, que se desenvolveu nos dois anos finais de sua vida, é desnecessário dizer que ele consistiu em uma constante interlocução por telefone. Neste período final de nossa interação se destacam duas questões centrais: nosso respeito e admiração comum pelo Mestre Honen e seu lento e gradual distanciamento crítico em relação ao Perenialismo de René Guenon (1886-1951), perspectiva essa que marcou profundamente seu percurso de pensamento desde aquele período da década de 80 do século XX a que me referi anteriormente. Assim sendo, gostaria de desenvolver este tema de forma detalhada em um momento oportuno, mas gostaria de me limitar a dizer o seguinte nessa breve interlocução: o pensamento de Honen consiste em dois eixos principais, sendo que existe uma íntima relação entre eles. O primeiro deles é o conceito de Senjaku ou de “opção”. Esta opção pertence ao próprio Buddha Amitabha no processo de optar pelo verdadeiro e de abandonar o falso. O segundo é uma compreensão do período histórico do fim do dharma (Mappô) entendido não como um momento de decadência, mas muito pelo contrário como o momento em que se concretiza a distinção entre o falso e o verdadeiro. Como Honen recusa aqui em sua totalidade o Budismo dominante em sua época, seu pensamento abre caminho para a mais radical crítica ao Perenialismo e às apropriações contemporâneas desse pela atual extrema direita.

Para concluir esta homenagem gostaria de dizer que o filósofo Tanabe Hajime (1885-1962) se referia em seu período tardio ao conceito de Gensô Ekko ou retorno ao mundo como Bodhisatva como implicando na forma com que renascemos nos outros e para os outros através de nossa morte. O falecimento recente do Professor Ricardo confirmou em mim o forte sentimento da veracidade dessa compreensão.

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Joaquim Monteiro

Professor do dharma do Jodo Shinshu Honpa Honganji. Doutor em Budismo Chinês pela Universidade de Komazawa, Tóquio, Japão. Graduado em psicologia pela Universidade Santa Úrsula/RJ Desenvolve, no momento, reflexões críticas a respeito da relação entre Budismo e Sociedade.

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