OUVIR O SOM DO ENCONTRO

OUVIR O SOM DO ENCONTRO

“Os encontros, dizia o professor, enquanto ouvíamos todos (e seguimos ouvindo), eram a chave para o entendimento. Porque apenas pelo encontro a escuta é possível, e apenas pela escuta a iluminação se faz.”

Há muitos modos de se ouvir o Dharma, de conhecer o budismo, a tradição (ou as tradições) que desde Buda vem se desenvolvendo mundo afora. Uma dessas formas, fundamental desde o início, é a escuta. Ouvir o Dharma, como se diz em muitos budismos: monpô, na tradição da Verdadeira Escola da Terra Pura, da qual o saudoso e querido professor era Reverendo e grande conhecedor.

Quando primeiro ouvi o nome de Ricardo Mário Gonçalves, o fiz em leitura. Na capa de um exemplar já amarelado de “Textos Budistas e Zen-Budistas” (Gonçalves, 1976; publicado inicialmente em 1967. Ali, figurava como organizador. Mas já na folha de rosto aprendíamos um pouco mais: “Seleção, tradução e notas de Ricardo M. Gonçalves.” Não apenas organizador, portanto, senão um verdadeiro autor, ou coautor, junto a tantos outros que naquelas páginas se revelavam ao público brasileiro. A história do budismo no país, pelo menos em sua contemporaneidade, não seria a mesma sem sua presença atenta e atenciosa.

O professor costumava dizer que sua própria trajetória no budismo, como praticante do Dharma, como reverendo, estudioso, pessoa, vinha de seus encontros pela vida. De como ele, por diferentes razões, chegara às situações em que chegara. E ouvira o Dharma, o ensinamento, como ouvira. Os encontros, dizia o professor, enquanto ouvíamos todos (e seguimos ouvindo), eram a chave para o entendimento. Porque apenas pelo encontro a escuta é possível, e apenas pela escuta a iluminação se faz.

Bom ouvinte, respondeu um e-mail que lhe enviei por volta de 2010, sem que sequer nos conhecêssemos. Eu pedia ajuda com os caminhos, acadêmicos e dhármicos. Ele me acolheu, paciente e generosamente, e desde aquele momento me orientou em muitas outras dúvidas, muitos outros momentos de precisão. Mais recentemente, tive a sorte imensa de ter sua carta de recomendação para processos seletivos que prestei, já como professor doutorado. As vagas, percebo agora, eram o que havia de menos importante ali: a disposição do professor em me auxiliar, em me apoiar nos caminhos que eu buscava, a riqueza de ter sua recomendação, tais foram as joias desse encontro, pelo qual sou grato.

Também graças a ele, desde aquele primeiro livro, fui apurando o ouvido para a beleza, as minúcias e a importância da tradução. Não haveria budismo no mundo, pelo menos não como hoje existe, se não fossem as traduções de textos, sutras, sermões, histórias apócrifas ou não. Poemas. Florilégios. Ricardo Mário Gonçalves foi um eminente tradutor, cuidadosíssimo, respeitando os textos que lhe chegavam e que, a exemplo dos textos budistas e zen-budistas, ele vertia. Muito do que se sabe sobre budismo no Brasil, não tenho qualquer dúvida, vem de suas traduções ou, no mínimo, do incentivo e entusiasmo que ele desde há muito, muito tempo, demonstrava por tal ofício. Ainda hoje espero pela oportunidade, infelizmente não mais em sua companhia, de colaborar com a tradução poética dos cantos, hinários e versos do budismo da Terra Pura, que ele tão zelosamente conduziu por anos através da Oficina de Traduções Kumarajiva.

Faceta das mais estimulantes, também, era seu pendor anarquista, sua preocupação social, seu engajamento e olhar crítico sobre os destinos do mundo. Foi pelo professor que conheci a história de monges anarquistas japoneses, como Uchiyama Gudo, e pude aprender, com sua livre-docência em História, sobre “A ética budista e o espírito econômico do Japão” (Gonçalves, 2007). Ao ser publicada em livro, trinta anos após sua defesa na Universidade de São Paulo (USP), a tese do professor se atualizava explicitamente, para revelar ao leitor uma consciência crítica das mais argutas. Dizia, no texto que abre a obra à guisa de atualização:

“(…) a própria Modernidade se nos revela não mais como a construção do Paraíso na Terra, mas como algo que deve ser seriamente questionado e criticado. Em tempos de aquecimento global, destruição do meio ambiente, perspectivas de uma próxima escassez de água potável, casos gritantes de desigualdade econômica e social e ameaças terroristas generalizadas, ninguém mais pode crer ingenuamente no mito do progresso contínuo da Humanidade lançado pelos filósofos iluministas do século XVIII.” (Gonçalves, 2007: 17).

Foi ele um dos mais enérgicos opositores do recente conservadorismo brasileiro, das crescentes ondas de intolerância religiosa, racismo, homofobia e desigualdade explícita pela qual temos passado, todos nós, como sociedade. A comunidade budista brasileira, se é que alguém pode afirmar a existência de uma comunidade budista brasileira, deve muito à sua lucidez.

Por estas, dentre muitas, muitíssimas outras razões, sinto-me honrado em poder dizer um pouco desse meu encontro, bendito encontro, auspicioso encontro, com o professor que não nos deixou, porque segue conosco. A cada recitação, a cada lembrança, a cada respiro do budismo, qualquer budismo, neste país que é o Brasil, e no qual nos cabe o karma de viver.

Ao professor Ricardo Mário Gonçalves, a nosso Reverendo, Irmão no Dharma, a nosso querido amigo, deito este pequeno texto em homenagem, e a ele dedico todos os méritos que meu agradecimento pode alcançar. Sem a escuta de suas palavras, e das palavras do Buda, e das palavras de Ananda, e de tantas e tantas palavras que, ainda jovenzinho, li em seus textos traduzidos, minha vida seria certamente distinta. Talvez eu seguisse ainda no caminho do iluminismo, e não da iluminação que vai distante, éons e éons, mas à qual aspiramos chegar. Assim como aspiramos ir-nascer na Terra Pura, que agora certamente rebrilha com a memória do professor que tanto nos ensinou, ensina e ensinará.

 

” Calma, meu caro, minha cara, calma. Calma e fé, e confiança e prática, calma a fé no poder do Outro, não no Si-Mesmo, já que em si mesmo não há o mundo que o Outro comporta. Que os outros representam. “

Florilégio a oeste

(em memória do querido amigo e professor Ricardo M. Gonçalves)

Há uma tradição budista muito bonita, a da Terra Pura, que diz assim: Amida, o buda da Luz e da Vida infinitas, disse antes de se iluminar: “Quando iluminado for,  que todos os seres, de todos os tipos, alcancem minha terra purificada da iluminação, encontrem as melhores condições e de lá se libertem, e dali se iluminem.” É a tradição do Outro Poder, não de si mesmo, porque confiante no voto daquele que nós não somos, na iluminação que não temos, na liberdade que não alcançamos. O Outro Poder, o Voto de Amida, de Amituofo, Amitabha, Amitayus, diz: “Calma, meu caro, minha cara, calma. Calma e fé, e confiança e prática, calma a fé no poder do Outro, não no Si-Mesmo, já que em si mesmo não há o mundo que o Outro comporta. Que os outros representam. Calma a fé, meu amigo, minha amiga, e contato, e diálogo, e ouvido. Presta atenção no Outro”, diz o Voto, “e vem comigo.”

Referências

GONÇALVES, Ricardo M. (org.). Textos budistas e zen-budistas. São Paulo: Cultrix, 1976.

GONÇALVES, Ricardo M. A ética budista e o espírito econômico do Japão. São Paulo: Elevação, 2007.

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Leandro Durazzo

Leandro Durazzo é antropólogo, poeta e tradutor. Autor de Gestação de Orfeu (ensaio, 2011), Tripitaka (poesia, 2014), Histórias do Córrego Grande (prosa, 2015), Cantos de Natal (poesia, 2017), integrou a antologia de poesia contemporânea É Agora Como Nunca (organizada por Adriana Calcanhotto, 2017), e "Mar de Viração" (2019).

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