A virtude da Naturalidade em Laozi e Liezi

A virtude da Naturalidade em Laozi e Liezi

“Se meditarmos a respeito dessa inconstância, enfrentaremos as contingências da vida com uma atitude mais serena e suave, e em certo modo, seremos menos perturbados pelas oscilações contrárias tais como sucesso e fracasso, dor e prazer, ganho e perda, vida e morte.”

Desejar conquistar o mundo e nele intervir:
vejo que isso não se deve fazer.

O mundo é um vaso sagrado
e não deve ser manejado.

Quem nele intervém, fracassa.
Quem o retém, perde-o.

Portanto, as coisas ora conduzem, ora acompanham.
Ora se encrespam, ora se suavizam.
Ora se fortalecem, ora se enfraquecem.
Ora florescem, ora desfalecem.

Por isso, o Sábio evita desmedida,
extravagância e arrogância.[1]

 

Na visão taoísta, quando desejamos conquistar o mundo, tendemos a agir forçosamente. No entanto, seria mais razoável que pudéssemos corresponder (因-yin) ao mundo e não intervir (为-wéi) nele. Há uma diferença entre a ação baseada na correspondência e aquela outra baseada na interferência. Nesse sentido, a ação mais adequada é respeitar e aceitar a natureza de cada ser. Geralmente o ser humano tem o desejo ambicioso de querer se assenhorear das coisas, como se pudesse dominá-las a qualquer custo visando o seu próprio lucro. Todavia, quem comete atos excessivamente ambiciosos, provoca desequilíbrios e contraria o fluxo natural. É por isso que na medida em que considerarmos o nosso mundo sagrado (神-shén), estaremos mais próximos de um estado de ser originário, natural e autêntico. Se percebermos o mundo de modo holístico e dialético, veremos que a ordem da totalidade natural abarca os aspectos mais contraditórios. Nessa concepção, as coisas se complementam uma com a outra numa relação de reciprocidade: cada elemento é considerado como parte organicamente interrelacionado com o seu elemento oposto na unidade do Todo. Portanto, quem age sob o influxo dessa compreensão dialética-holística, não privilegia um lado em detrimento do outro como tampouco contraria a ordem da Naturalidade que perpassa o mundo fenomênico. Nessa perspectiva, os taoistas simplesmente sabem que é importante retornarmos à Unidade do Dao. Na visão unificada da complementaridade, o ganho e a perda, a alegria e a tristeza são momentos indissociáveis e essenciais à vida.

O taoísta-budista Su Zhe[2] observa que, agindo pelo wúwéi, o sábio segue a Naturalidade de cada coisa (因万物之自然-yīnwànwùzhīzìrán). No entanto, a maioria das pessoas age com sagacidade, violando a ordem da Naturalidade que é intrínseca ao mundo na sua dimensão sagrada. O sagrado é justamente o que constitui a Naturalidade de cada ser. Portanto, o contrário do sagrado natural só poderá ser algo excessivo que infringe a ordem da totalidade unificada inerente à essência constitutiva de cada ser. Por isso, como o sábio que segue a Naturalidade, seria mais saudável que evitemos a desmedida, a extravagância e a arrogância. É por isso que a desmedida (甚-shèn) passa a ser prejudicial na medida em que se valoriza um aspecto da existência quando agimos sob o condicionamento de uma atitude parcial. É quando vemos as coisas de maneira unilateral e ignoramos a tessitura complexa do Todo. Nesse aspecto, é fundamental agirmos em consonância com o Todo, atuarmos pela Naturalidade do wúwéi (无为) e cultivarmos uma relação harmoniosa com o mundo. Se percebermos o caráter incongruente de certas regras prescritivas e arbitrárias, perceberemos que a ação mais apropriada seria aquela que corresponde ao fluxo da Naturalidade.

Assim, seria inapropriado nos apegarmos (执-zhi) às coisas, já que estas ora se fortalecem, ora se enfraquecem, ora se revelam sob um aspecto, ora se revelam sob um aspecto diferente. Se meditarmos a respeito dessa inconstância, enfrentaremos as contingências da vida com uma atitude mais serena e suave, e em certo modo, seremos menos perturbados pelas oscilações contrárias tais como sucesso e fracasso, dor e prazer, ganho e perda, vida e morte. Agiremos simplesmente na plenitude da Naturalidade, adaptando-nos às mudanças que acontecem no mundo. Manifestando a eficácia do wúwéi, corresponderemos aos fluxos dos acontecimentos sem que nenhuma coisa seja violada e, sobretudo, compreenderemos que não há nenhum motivo para criarmos perturbações na harmonia do Todo. Nesse sentido, não somente não criaremos conflitos com a ordem harmônica do Todo, como ainda estaremos mais atentos às circunstâncias para agirmos de maneira mais adequada. Ao realizarmos as ações com mais eficácia, manifestaremos maior autenticidade e liberdade no que diz respeito às nossas escolhas.

            É por isso que numa das histórias cheias de ambiguidade e paradoxo contadas pelo mestre Liezi no seu Vazio Perfeito, presenciamos a eficácia imanente do poder transcendente do Dao no próprio corpo de um praticante taoísta. Somos surpreendidos pelo fato de que um corpo pode realizar certas ações perigosas sem que nada lhe aconteça. É como se, por um lapso de tempo, a pessoa pudesse abolir o seu modo de ser ordinário e fosse capaz de penetrar num estado diferenciado de existir onde tanto a mente como o corpo transcendem as condições espaço-temporais. Ultrapassando o plano profano da existência condicionada, ela imerge na dimensão do sagrado e regressa à sua natureza primordial, alcançando uma condição ontologicamente superior que é plenamente harmoniosa com a essência suprema do Dao.

 

Liezi perguntou a Guan Yin: “O Homem Superior caminha no fundo das águas e nunca se afoga. Pisa no fogo sem receio de se queimar. Caminha sobre todas as coisas e jamais sente medo. Por favor, me diga como ele consegue alcançar essa dimensão!”

Guan Yin esclareceu: “É pelo fato de ele preservar o Sopro Vital Puro e não em virtude de adquirir alguma espécie de inteligência, arte, determinação ou coragem. Ah! Deixe-me lhe esclarecer. Tudo aquilo que tem aparência, imagem, som e cor é uma coisa, mas por que uma coisa se distingue de uma outra? Qual é a sua primeira característica? A diferença está na forma. Mas as coisas são geradas por aquilo que não tem forma e todas as suas transformações se consumam no Vazio. Alcançando a dimensão desse Princípio Último, como a pessoa sofrerá as limitações externas? Quem permanece na sua própria natureza, jamais ultrapassando o domínio da Naturalidade e ainda se refugiando na Lei da Constância, flui com liberdade na realização última de todas as coisas. Ele unifica sua natureza, cultiva seu Sopro Vital (气-qì), abraça sua Virtude e se harmoniza com a natureza de todo o Universo. Então, se esse Homem Superior resguarda a Naturalidade e nunca prejudica seu Espírito, como as coisas poderão agredi-lo? É como um bêbado que cai da carruagem. Embora tenha caído de modo abrupto, ainda assim não estará morto. Seus ossos e articulações são iguais aos de outros homens, porém, como ele nunca sofre prejuízo, é uma pessoa diferente em virtude de seu Espírito se conservar na completude. Por outro lado, com o indivíduo que dirige a carruagem o mesmo não acontecerá, e por isso, ao cair, ele reagirá de maneira completamente diferente. Entretanto, no coração do Homem Superior não penetra a percepção da vida e da morte, do medo e do temor, e por isso, quando ele se encontra diante das coisas, não se atemoriza. Se, no estado de embriaguez, alguém poderá resguardar seu Espírito, como não seria capaz de resguardá-lo por meio da Naturalidade? É por essa razão que o Sábio se refugia na Naturalidade e as coisas jamais conseguem prejudicá-lo.” [3]

            A arte taoista busca a reconexão com o Sopro Vital (气-qì) presente nos nossos órgãos corporais. Isso significa que por meio do processo de harmonização entre corpo e espírito nutrimos essa energia vital poderosa. Na medida em que cuidamos da preservação e refinamento desse Sopro, nosso corpo flui no estado de suavidade de um recém-nascido. É por isso que o Homem Superior age no estado de Não-Mente(无心-wúxīn)[4] e se desapega das preocupações excessivas, dos temores e das expectativas mundanas. Se a nossa mente não abrigar mais nenhuma artificialidade nem forçar a si mesma para agir, ela também será capaz de manifestar em si a eficácia da Não-Ação. Isso porque a Virtude Misteriosa atua em nós de modo que as coisas naturalmente sejam geradas sem serem apossadas, isto é, sem que haja interferência excessiva na natureza originária das coisas. Neutraliza-se então o sentimento de possessividade. É a partir daí que compreendemos que o nosso Espírito conectado com o Dao jamais será abalado pelas limitações suscitadas pelas circunstâncias, já que a nossa mente impregnada pela eficácia daquela Virtude Misteriosa do Dao permanece livre e tranquila meditando no estado de Naturalidade. Conscientes de que as próprias coisas trazem consigo a sua potência natural e o seu desenvolvimento autopoiético, bebemos das águas revigorantes do recém-nascido e nos resguardamos na Natureza Originária. Desabrochando em nós a pérola de jade, ou seja, a essência sagrada do Dao, comungamos com a natureza do universo e conquistamos a harmonia interior onde nada poderá prejudicar nosso Espírito (神-shén).

            Por isso, agindo no mundo e preservando a nossa completude, testemunhamos em nós a ação daquela Virtude Misteriosa que faz com que o Homem Superior caminhe no fundo das águas sem se afogar e que no seu coração não penetre a percepção dualística. Assim, graças a tal eficácia, ele pode cair da carruagem sem que seu corpo seja machucado. Tal proeza só é conquistada pelo fato de que ele está vazio. Ao se esvaziar de suas intenções, pensamentos e sentimentos, ele se livra das suas próprias limitações. Na medida em que não age para si mesmo, o Homem Superior se autorrealiza na autenticidade. Ao realizar-se a si mesmo de maneira genuína, ele consuma não a realização de seus interesses egóicos, mas a dimensão mais nobre da Naturalidade do wúwéi. É evidente que o grande problema se encontra no apego humano e na noção de um Eu egocêntrico. De maneira análoga, se deixarmos aflorar esse poder da Virtude Misteriosa, alcançaremos o estado de Não-Mente onde os nossos desejos, sentimentos, pensamentos e crenças ficam livres do cárcere do egocentrismo. Desse modo, integrando-nos com o universo, não somente evitaremos a disputa com os outros, como ainda diante das pessoas e situações, agiremos sem pensarmos exclusivamente nos nossos próprios interesses pessoais. É somente nessa condição de desprendimento que viveremos uma vida impecável digna de um Homem Superior.


[1] Laozi, Dao De Jing; tradução de Chiu Yi Chih . São Paulo: Editora Mantra, 2017, cap.29.

[2] Laozi, A sabedoria de Dao De Jing / Daodejingdezhihui 道德经的智慧 (com comentários dos comentadores clássicos chineses Wang Bi e Su Zhe – traduzido por Huang Xian Sheng). Beijing: Xinshijiechuban, 2016, p.100.

[3] Liezi, Vazio Perfeito; tradução de Chiu Yi Chih. São Paulo: Editora Mantra, 2020, p.45.

[4] No seu comentário à tradução do Vazio Perfeito do chinês antigo para o chinês moderno, Zhuang Wan Shou afirma que na expressão “O Sábio se refugia na Naturalidade”, Liezi exprime a atitude de cultivar o estado de Naturalidade da Não-Mente, seguindo o Princípio Absoluto (自然无心,委顺至理也). Cf. Shou, Zhuang Wan (莊萬壽). Lieziduben 列子讀本 (Liezi com comentários e notas).Taipei: Sanminhshuju, 2010

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Chiu Yi Chih (邱奕智)

Chinês nascido em Taiwan e naturalizado brasileiro. Professor de filosofia chinesa clássica e de mandarim (leitura instrumental) no Centro Cultural de Taipei e nos cursos online de Taoísmo. Filósofo, poeta e tradutor de obras taoistas como “Dao De Jing” de Laozi e “Vazio Perfeito” de Liezi. Mestre em Filosofia Antiga Grega (USP) e graduado em Letras (Grego Clássico-Português/USP). Publicou o livro de poesia “Naufrágios” (Multifoco-2011) e um outro de ensaios filosóficos “Metacorporeidade” (Córrego-2016). Pesquisa a obra taoista de Zhuangzi, Guanzi, Huainanzi, e os Sutras do Budismo Chan. www.mandarimtaoismo.com

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